Crônicas, Contos e Poesias

Por Cica Carvalho

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Gleice

Eu matei o capeta disfarçado em mulher.

Um anjo pediu que eu matasse a encarnação do mal, um anjo, eu tive que matar aquela mulher, e ela tão bonita, tão jovem, mas o demônio se fantasia das mais belas formas para nos seduzir. Eu não matei, eu cumpri uma missão, uma missão designada por um anjo. Eu fui a escolhida. Entenda que eu não cometi um crime. Eu fui a escolhida. Ela era a encarnação do mal.

Ela era uma demônia, se mudou para nossa comunidade, trouxe aquelas meninas desavergonhadas para cá, para virar a cabeça de nossos maridos. Ela tirava os nossos homens e filhos de casa todas as noites. Alguém tinha que acabar com isso. Foi quando me apareceu um anjo, envolto de muita luz emanando paz, ele me disse, mate aquela mulher, elimine o mal da comunidade, é o único jeito de libertar a familia e manter os homens em casa.

Um anjo, bonito, de pele morena, olhos azuis celestes e cabelos negros. Ele tinha uma voz aveludada, que repetia, mate ela, mate ela, é a filha do mal, a semente da discórdia. Só você pode fazer isso. Mate ela e salve o mundo dessa prostituta, destruidora da família.

Naquela noite a Lua estava a poucos metros do chão, enorme, assustadoramente ao alcance da mão, as ruas estavam movimentadas, barulho de motor da motoca, latidos de cachorros, a bola do bilhar, a latinha abrindo, e as risadas das mulheres na casa vermelha. A noite era quente e abafada, toda aquela confusão estava me enlouquecendo. O pastor deu seu sermão para menos de dez pessoas. Saí do sermão vagando pelo perfume da noite, e de novo o anjo falou no meu ouvido, é hoje, vire aqui e vá até a casa, acabe com ela! Mudei meu rumo, a partir desse momento, não sei o que aconteceu, não fui levada pelas minhas pernas, sei que fui, passo a passo, me deixando levar por uma força muito maior e mais forte que minha vontade.

A casa estava cheia, mulheres de poucas roupas e vergonha, andando para lá e para cá, com taças nas mãos e cara de deboche, aquilo me fez mal, mas uma força muito maior me conduzia, e eu subi as escadas, nunca tinha estado lá, subi os trinta e sete degraus, caminhei pelo corredor, uma das portas era diferente de todas, tive certeza, é lá que a demônia se esconde e trama contra nós. Firme abracei a maçaneta e entrei, sem fazer um barulho se quer, sem ser percebida. Ela estava deitada, dormindo na banheira.

Na penteadeira vi um broche com forma de adaga, achei que seria perfeito para perfurar o peito daquela vampira. Quando peguei o broche, sem querer esbarrei numa caixinha que caiu, ela percebeu minha presença e levantou da banheira, pude perceber como era belo seu corpo, seus seios firmes, grandes e provocantes, sua cintura fina e sua pele alva. Entendi o interesse louco de todos os homens. Ela era doce como uma fruta madura.

Uma diaba querendo me atacar, com os dois braços esticados na minha direção, ela pegou com força meu pescoço, eu estava perdendo a respiração, para me defender comecei uma sequência de golpes com a parte ponteaguda do broche, ela lutou, perdeu o equilíbrio e caiu no chão, eu cai junto, quando fui levantar ela me segurou tentando me golpear, mas já estava muita fraca, caiu sobre mim e com os olhos arregalados, e muito sangue por tudo, morreu!

Tive que esperar uns quinze minutos para sair. Atrás da porta eu ouvia o barulho de homens com mulheres, como porcos no chiqueiro. Percebi que era o momento de sair e dei de cara com o senhor no corredor, de cueca e meias. Ridículo!
E agora estamos aqui, Senhor Investigador!


Monólogo interno de uma personagem no dia de seu interrogatório, para um teste

Irmã Rosário de Jesus Crucificado

Milagre na Cela- Jorge de Andrade

nome de batismo- Lourdes Maria Monteiro Canudo
data de nascimento- 07/04/1940
idade na peça- 37 anos


Numa noite sombria de verão, com tempestade, relâmpagos e trovões Irmã Rosário sentiu as primeiras dores do parto. Em sua cela, de paredes de gesso, porta de grade de ferro vazado, sua cama, um criado mudo, castiçal e vela, copo e jarro de barro, uma cômoda com seu hábito, crucifixo na parede, e a Bíblia na altura da mão. Nesse quarto, Lourdes sentiu sua primeira contração e nesse quarto, com uma grave hemorragia, ouviu no fundo do seu pesadelo, o grito a plenos pulmões de seu filho, vivo e saudável!
Lourdes quase sem pulsação caiu em sono profundo, fraca, lutando pela vida, durante três dias, quando com um suspiro, abriu seus olhos e não viu seu filho.
A Madre estava sentada em sua cama e a olhava com olhar terno e maternal, mas ela só queria saber do seu filho e não conseguia entender o que a Madre estava falando, ela tentava entender, cordão umbilical, sufocado, azul, sangue, cordão umbilical, choro. Choro!
-Ele está vivo!! Mas a Madre esta falando alguma coisa que eu não consigo entender
-Meu filho, cadê o meu filho, eu escutei o seu choro, meu peito tem leite, me dê meu filho, eu escuto seu choro, traga ele para mim, não tenho forças de me levantar, traga ele para mim. E a Madre com um ohar doce pedia calma;
-Calma minha filha, isso vai passar, descansa.
Ela caiu em sono profundo e assim permaneceu por semanas, acordava e perguntava por seu filho, sem resposta caía em sono profundo. Aos poucos foi aceitando a morte do rebento, mas as noites escutava o choro e vozes dizendo que seu filho está salvo, vivendo no mundo lá de fora.



Essa é uma passagem totalmente fictícia, do passado obscuro/secreto e problemático, da personagem de Jorge de Andrade, trabalhei em 2008.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O Drama-turgo

Sabe aqueles dias que não dá vontade de sair de casa? Quarta-feira passada, justo o dia que me programei para assistir à peça Pedreira das Almas, com o Fábio de Andrade e o Adriano Merlini, grandes amigos e colegas, no elenco. Tinha que ir de qualquer jeito. Gosto de acompanhar o trabalho e a evolução dos colegas. E também daqui a pouco, eu é que estarei em cartaz e quero poder cobrar a presença deles. Ahaahah... O motivo que me levava era torpe, mas verdadeiro. Só o gatilho...
E lá estava eu de novo subindo a Augusta, com o meu ipod, animadinha na chuva, indo para o Metrô. Oito e meia da noite.
Desci na estação Sumaré, quebrei uma direita e outra esquerda. Se fosse na época das carroças, a rua estaria cheia de Merda. Dizem que é daí que vem o famoso Merda, antes de entrar em cena. Merda = Casa Cheia. Muita gente, muitas carroças, muitos cavalos... muita merda!
Enfim, a casa estava cheia. E logo de cara encontrei o dramaturgo que escreveu a minha peça de formatura, muita emoção para uma simples ida ao Teatro. Cumprimentei-o rapidamente e fui para a bilheteria garantir meu ingresso e organizar as idéias. Uma fila básica, mil listas até achar o meu nome, sete minutos para começar a peça.
Feliz com meu ingresso na mão, vi que o meu “foco”, o dramaturgo, estava num papo animado com dois ou três, certeza que atores, pela altura da conversa e o tamanho dos gestos. Primeiro sinal. Fui ao Café, comprei um, mais uma água e um bombom para a peça. E lá estava ele, num instante sozinho... Investi e acreditei no meu movimento até o fim.
-Calixto! Quanto tempo, que bom te ver!
-Ciça! (Meu apelido errado... mas, ele pode) O que você está fazendo de bom?
-Ahh, acabei de fazer um curso de interpretação, plano novela e mini-série.
-Jura? Cáassia?
   Eu já conhecia a Cássia de nome, mulher dele, produtora de Casting dessas, com o perdão da palavra: fodonas..! Ele me apresentou a ela, dizendo, a Ciça é boa, ela é legal, mas tudo que eu queria era falar com o marido dela e convidá-lo para ler o meu Blog! Não era paquera. Eu precisava de um feed-back, uma crítica de alguém do meio. Toca o segundo sinal. Gelei. Respirei fundo e sem querer ser grosseira, desatei:
-Cássia, posso mandar meu material por email para ele, que te encaminha? Ela concordou e me virei rapidamente:
-Então..., finalmente consegui falar em três frases que estava escrevendo e que adoraria receber uma visita dele no blog, terceiro sinal! Simpático ele disse que ia olhar sim.
Missão cumprida. Assisti à peça que já montei no Célia Helena, que conheço decor e saltiado, emocionei-me muito com o texto, com o trabalho dos atores, com as escolhas do diretor, a luz... e corri para casa mandar o email para o Dramaturgo e sua mulher.
A novidade é que estou estudando dramaturgia com o Calixto paralelamente `a redação literária. Um mergulho de cabeça, uma verticalização na aritmética das letras e talvez reflita aqui no Blog, eles querem me enlouquecer.... e eu estou adorando!



VIGA Espaço Cênico
Telefone: (11) 38011843 - Rua: Capote Valente, 1323 - CEP: 05409-003
(entre a rua Heitor Penteado e a Amália de Noronha). Próximo ao metrô Sumaré. 





domingo, 13 de setembro de 2009

Metrô em Sampa


Terça-feira passada, cinco e meia da tarde, a cidade estava um caos, na hora que resolvi sair de casa para me dirigir ao curso de Redação Literária. Vi na internet que naquele momento seria impossível ir de carro -trinta pontos de alagamento! Semana passada não fui `a aula, não me lembro o motivo, mas jamais falto duas semanas consecutivas... jamais!
Então vesti galochas, capa de chuva, mochila, o "ipod" e fui animada escutando Madre Deus para o metrô Consolação. Animada não. Resignada. Já tinha o bilhete, um só; na volta compro o outro, já que o movimento será bem menor. Desci pelas escadas rolantes, e me posicionei estrategicamente na plataforma de embarque, como maré em lua cheia, a onda de pessoas que chegava estava mais para Tsunami.
Respirei fundo e me mantive firme. O trem chegou e parou, abriu a porta, a multidão se encavalou na troca de fluxo. As pessoas não conseguem esperar o desembarque para depois embarcar... fazer o quê? Fiquei `a distância, e assim que a confusão se aquietou entrei no vagão, encostei na parede, perto da porta e tentei me levar pela música.
O trem não estava lotado, apesar da plataforma estar, todos conseguiram se acomodar. O incrível é que em poucos segundos e já estávamos na próxima estação, mais uma plataforma cheia de pessoas que entram no trem, antes disso, lógico que se engalfinham para saber quem entra e quem sai primeiro. E eu lá, encostada na parede, perto da porta, controlando meus impulsos.
Seguimos viagem, terceira estação. Quando vi a quantidade de pessoas para o embarque, meu coração disparou, sabia que todas iam se espremer até conseguirem entrar no trem. Pensei em enfrentar como nas duas últimas estações, mas pensei por três segundos e corri para a porta, tentar sair. Digo tentar, porque não necessariamente você consegue sair. A minha sorte é que um funcionário do metrô, que está lá para auxiliar o embarque e desembarque, viu no meu olhar minha perturbação, me pegou pelo braço e puxou, como quem desentope uma pia, e me salvou! Salve os monitores! Eles ajudam os cadeirantes também!!
Feliz e levemente frustrada, sentei-me numa cadeira ali mesmo. Todos entraram no trem, esmagaram-se e o trem partiu. Do meu lado, uma moça de uns 19 anos. Observei que ela estava ali sentada, olhando como eu o movimento e resolvi puxar assunto, depois de um breve sorriso:
-Tentei, mas não consegui seguir viagem, o trem não parou de lotar, foi me dando falta de ar e taquicardia e resolvi fracionar a viagem.
-E eu estou fazendo hora e esperando o trem esvaziar, passo mal com ele lotado assim...
Eu fiquei tão feliz de saber que não sou um "alien", que outras pessoas também “fritam”...
Bom, não tinha o que fazer, sempre vou para a aula uma hora e meia antes justamente para fazer a lição, com calma, naquela casa maravilhosa e inspiradora. Abri minha mochila; prancheta e lápis na mão e em sete trens escrevi minha redação e ainda a passei a limpo. Quando terminei, olhei o trem e estava quase vazio, num pulo de gato, mochila, lápis e prancheta na mão entrei no trem, mais duas estações e consegui chegar `a aula, eu, o professor e três alunos...!!
Foto: da Web.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Minha Oração



O que posso fazer para merecer Ser?
Eu sei que o melhor é esquecer...
Mas nessa solução,
Não encontro uma saída!
Invoco as forças:
-Ditirambo e ancestrais!
Todas as energias astrais.
Me ajudem a me satisfazer,
com calma, com maturidade
Me despindo da vaidade
Caminho em busca da Verdade!

Feiticeira??? Nãooo
Oração que criei, pedindo licença aos Deuses para subir aos palcos ou encarar as câmaras!!

escrita em 2005

Ditirambo ("hino em uníssono"), consistia numa ode entusiástica e exuberante dirigida ao Deus, dançada e representada por um Coro de 50 homens (cinco por cada uma das tribos da Ática) vestidos de sátiro; meio homem, meio bode, uma espécie de servo de Dionisio.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Tulipas e Eu.


Há uns dez anos, eu cursava o último ano da faculdade de Nutrição no período da manhã. Depois da aula corria para o Estúdio Way of Light, filava um almoço incrível e trabalhava de produtora.
Em um job -como é chamado cada trabalho- este de um Shopping “babado” de São Paulo, eu precisava de uns cem vasos de Tulipas. Não conhecia e nem sabia a forma da flor, quando sentei-me em frente `a minha mesa, com o briefing na mão e comecei a fazer contatos.
Descobri de onde vem a maioria. Falei na prefeitura da cidade, descobri o maior produtor, este me indicou seu maior representante e é aí que eu entrava com tudo. Já chegava arrematando todo o estoque, em flor ou botão.
Negócio fechado, todas as flores fechadinhas acondicionadas em grandes caixas de isopor, tudo isso dentro do meu antigo carro, um gol. Abaixei os bancos, tirei o tampo do porta-malas e virou -otimista que sou- praticamente uma caminhonete.
Não é que, estou dirigindo “minha caminhonete” na Raposo Tavares, meu chefe Sérgio Chvaicer, me chama:
-Tá na escuta?
-Sim, no caminho de volta.
-Como elas estão?
-Lindas, em botão, e parecem ser rosas. Quando olho pelo retrovisor, a visão foi incrível, inesquecível! Todos os botões estavam abertos, escancarados; gargalhando da minha cara! Respirei fundo...
-Sérgio?
-Pim.. Sim?
-Não sei o que aconteceu, mas os botões se abriram, não sobrou nenhum botão.
-Cacete! Fecha o vidro, liga o ar condicionado no máximo e corre para cá.
Eu não tinha ar condicionado. Quando cheguei no estúdio, elas estavam ainda mais salientes.. escancaradas, despudoradas em flor! Com muita calma levei correndo para o estudio frigorífico e em segundos as pequenas se fecharam, voltaram a ser moças tímidas. Não! Melhor, embriões! Ufaa...
Nessa hora, nesse exato momento consolidou-se meu amor por elas. Acho que o primeiro rompante, foi a vista do retrovisor, elas dançando cancan e cantando Piaf no meu carro! E depois elas timidas se encolhendo, se guardando. Que coisa linda! Como a Natureza é perfeita.
Quando as Tulipas foram clicadas (fotografadas), e aprovadas pelo cliente, de novo, estávamos eu e elas. Longe de mim, querer ficar com todas...
Comecei por distribuí-las entre as mulheres do estúdio, depois para os homens presentearem suas mulheres, e por fim, ainda sobrou metade do meu carro de Tulipas. Resolvi levar todas para minha casa e sábado cumprir uma peregrinação entre nossas colaboradoras.
Fim de tarde, sabadão, parei na frente da loja Cleusa Presentes da Rua Estados Unidos, e desci correndo com um vasinho para a Marlene. Quando volto, vejo uma senhora elegante com o nariz metido dentro do meu carro, observando minhas meninas. Ela me olhou da cabeça aos pés:
-Nossaa.., estava olhando e imaginando quem compraria tantos vasinhos de flores de plástico com tantas Espéeciess maravilhooosas...
Com muito prazer, enchi minha boca:
-São naturais, e não tão raras. São Tulipas!
A senhora sem graça, mostrou-me os dentes.
-A senhora pode ficar com um vasinho.
Ela me agradeceu efusiva e foi feliz levando sua flor. E eu voltei para casa, com todas as minhas útimas Tulipas!
Só minhas!!
Foto: arquivo pessoal

domingo, 9 de agosto de 2009

Trecho da peça Cárcere- Cela Forte Mulher



Como me reintegrar?
Se aqui a Lei
é da malandragem?




Como?

Como acreditar
que é possível amar?
Se na primeira entrega
De quebra, vim pra cá

Como?

Como lutar?
Meu corpo é fraco,
Meu espírito inquieto
Doente,
padece.

Como?

Como?

Como disfarçar?
Essa merda de maldade,
Que cresce
no meu olhar!

.
.
.
Como?

•Cárcere- Cela Forte Mulher, criação colaborativa de dramaturgia, no Teatro-escola Célia Helena- 2006

Nessa cena, falta o prólogo, assim que achar, no meio da minha bagunça, postarei o ambiente e a ação. Nossa, a estrutura é péssima... agora vejo! Rss
Foto: da Web!

Homenagem ao Zé do Caixão


Inútil túmulo
Nenhum cúmplice
Múmia peituda
No fundo, a Lua

Profundo escuro
Último subúrbio
Na catacumba do túmulo
A múmia fecunda

De túnica fúnebre
Música de espelunca
A múmia cornuda
Assusta Raimundo

Contudo, o ilustre defunto
De capuz, do furto
Rumo ao obscuro
O nunca e a luxúria

Húmus, lúpulo e fungo
Exu, belzebu, urubu
Na catacumba Raimundo nu
Assume sua angústia

Aliteração em U, repare que a tendência é ficar fúnebre! Influência do som U.

Foto: da Web.

Paranóia de Penélope

Paranóia presa
Pula Pacaembu para Parati
Penélope pensa
Pupila preta perpétua
Pura percepção
Se péla de paúra da prisão
Sem compensação espera a panela
Perfumada de temperos
Pira no tapete persa
Perto da parede
Perereca piolha
Piolha minha panela
Pensa que pode me despistar
Pressinto o impossível
O professor pediu para parar


Aliteração em P, 10 min de criação.

Grande são os Desertos!

Mais um ano se passa
Época de festas
O que me resta?
Onde foram parar meus amigos?

Ensaio um tango
Arrumo a casa
Vejo minha imagem no espelho
Reflexo do tempo
Apago!

Acendo um cigarro
Ensaio um sarro
Mais um trago de cachaça
Acho graça

E me ajeito entusiasmada
Cato a bolsa
e largo
Época de festas

No chão minha mochila
Me olha esperando companhia
Quero viajar...
Mas rasgou minha cortina

Época de festas
Quero sonhar....
Mas a cidade esta deserta!

Versando em cima de Grande são os desertos de Álvaro de Campos.
Rascunhos Poéticos- Casa das Rosas-2007.

-20 min para criação-

...Nostalgia!

Saudade
Das gargalhadas
Das lágrimas
Do miado da gata
Da palavra exata
Da balada barata
Do hálito do amado
Do falo gritando feito arauto
Do asfalto empoeirado
Do orgasmo diário
Do seu casaco no meu armário
Da toalha pendurada
Do compasso da valsa
Do palco, do teatro
Das risadas e aplausos
Do cineasta viciado em válium
De ficar ilhada
De gargalhar no quarto
Da árvore araucária
Do olhar prostrado
Do passado dourado
Do barco na margem
Da viagem para Marte
Do olhar que me traz arte
Do afago da alma
Da amizade que traz calma
Da cascata engraçada
Do papo para o ar
Saudadeeee
Da cidade natal
Do enxágue bucal
Da minha fase oral


Aliteração em A. Com elemento de ligação.
Essa também é da turma das antigas, meio sem ritmo..!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Tema proposto- Hoje

Hoje acordei satisfeita
Com minha vida,
Minhas agruras e alegrias
Meu ócio e meu deleite

Hoje acordei satisfeita
Com meu homem do meu lado
Calcinha e sutiã jogados
Espalhados pelo chão

Hoje acordei satisfeita
Com café forte
a página da Ilustrada e
Pizza requentada

Hoje acordei satisfeita
Sonhando com o impossível,
e aceitando o previsível,
Como um Rio que encontra o Mar
Quero me deixar -louca- levar

Hoje acordei satisfeita
A mão firme dirigindo o leme da minha vida
O olhar no foco, na mira do alvo
Meu coração bate leve

Hoje eu acordei satisfeita!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Como Cão e Gato!




Faz três meses que adotei uma cadelinha muito charmosa e terrivelmente inteligente.
Numa tarde, na casa do meu namorado, o irmão dele aparece com uma cadela da raça Spitz Alemão, senhora de si. De salto alto e nariz empinado, correndo pelo quintal. Cachorrinha de apartamento, num terreno de quinhentos metros quadrados. Ela estava feliz e realizada. Me encantou. Meu cunhado disse que ela estava há duas semanas sozinha no apartamento do dono. Não tive a menor dúvida, aceitei cuidar dela temporariamente, depois de pensar por longos cinco minutos!
Final do domingo, fomos para casa. Nossa adaptação foi instantânea. Na primeira manhã acordei com ela dormindo, do lado fantasma da minha cama, com a cabecinha no travesseiro!... Isso já faz três meses!
No fim de semana, vou com minha nova companheira, Mink, para casa do meu namorado. A rotina é tão marcada, que só de ver a mochila, ela fica louca. Quando entro na rua, começa a uivar. O quintal enorme, os vários amigos que ela fez por ali, a Isa, a comida da Isa... o conjunto a faz uivar. Assim como eu....!
Nesse ponto entra o Gato. Vira-lata, quase idoso, cego de um olho e dono da área. Nome- O Gato. O rei da casa. Eu sempre acreditei muito na cadeia alimentar e fiquei arrepiada e curiosa da relação que ali nascia. Esqueci um detalhe importante, o apelido da Mink é Suzane Richthofen.
Bom, o primeiro impacto entre os dois, não presenciei. Quando vi, já estavam lado a lado. A Mink nem aí para o Gato, e o Gato curioso da Mink. Essa relação foi crescendo a medida que ela se tornou parte da familia.
No último sábado, estou assistindo televisão e escuto um Merrrreeeeuuu, na mesma hora levantei e abri a porta. Desconfiado, ele analisa o território antes de entrar, a procura daquela, que invade seu espaço, come sua comida, rouba a atenção de todos, marca território, aquela; a Monstra! Depois de mapear a sala, identificar de onde vem esse cheiro, ele entra, desconfiado, passos largos e rasteiros, como um felino selvagem rodeando a presa. A presa na verdade é ele! Todo animal que se sente acuado...
Deitada, em um ninho de manta, Mink relaxa no sofá, sem se incomodar com a presença ferina do Gato. Se Mink está no sofá o Gato se acomoda na poltrona, se ele está na cadeira, pode procurar que ela está embaixo, é uma relação de amor e ódio, porque estão sempre juntos, mas se ela passa abanando o rabo, altiva perto dele, ele não hesita, mete a mão! A patinha estica três metros e meio e vira uma raquete, e a carinha dela a bola! Eu sempre por perto, aparto antes da raquete chegar na bola.
Somos meros coadjuvantes de um documentário real da vida selvagem!
Cica Carvalho
Foto: arquivo pessoal

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Café Creme


Numa dessas manhãs de feriado, fugindo das inevitáveis tarefas domésticas, troquei a pantufa pelo tênis, catei minha bolsa e corri para o café. Sou uma cliente habitual, e antes dessa maldita Lei, eu batia carteirinha.
Bom, o delicioso aroma do café cremoso e espumante estava me perturbando. Entrei no Sallon com passos firmes e vigorosos, dirigi-me ao caixa, o mesmo atendente, o mesmo uniforme e sorriso. Impecável!
-Bom dia!
-Bom dia, um café curto e puro, continua o mesmo preço?
-Sim.
-Creme `a parte, por favor.
-São R$ 3,50.
Uma sensação de alívio percorreu o meu corpo... Coloquei minha discreta bolsa em cima do balcão, tirei minha agenda, a caixa dos óculos, Esaú e Jacó e finalmente meu porta moedas.
-Aqui, moço. Obrigada.
Escolhi a melhor mesa, alta e com bancos de encosto e apoio de braço, confortável e elegante, de onde eu conseguia ter uma visão panorâmica do Hall do cinema. Adoro pessoas que adoram cinema.
-Com licença. Uma garçonete, com um coque muito puxado e engomado, colocou minha xícara e saiu silenciosamente.
Satisfeita, mantive meu ritual, de movimentos “ensaiados” para temperar meu café com dois saquinhos de açúcar, mexe, creme, uma pitadinha de canela, um suspiro profundo, olhos fechados e em três grandes goles, sorvi o conteúdo, respirei fundo e lembrei da vassoura, a louça; a casa!
Cica Carvalho.

10-15 linhas
Cena do cotidiano.
Não deve ter conflitos. Mas tem!

Foto: arquivo pessoal.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Título proposto- Manhã de Sol

Aquela manhã de Sol
Orvalho nas pétalas
Na jardineira,
no pé da janela

Aquela manhã de Sol
O rosa era mais vivo
O canto mais afinado
O mundo sorria entusiasmado!

Aquela manhã de Sol
O riso atrevido
Era abafado,
Pelo barulho repetido
e desgovernado

Aquela manhã de Sol
Aquela manhã
Aquela...
Sol.

terça-feira, 2 de junho de 2009

BIG BAN (Natureza distante)

Se Estrela
Se Astro, Lua ou Planeta
Se Galáxia...
Se Constelação ou buraco negro
Se cotovia brinca nas nuvens
Se nebulosa camada de ozônio
Tufão, ciclone, furacão
Terremoto, T-su-na-mi!
Se Sol em demasia
Cerrado e caatinga
Se floresta, cachoeira
Se cachoeira, queda d'água
Se no céu estrela cadente
Na Terra, sorriso de flerte
Se pinguím mora na ilha
E siri no rochedo
Se só, raio de gruta
Se tubarão come robalo
Que saco!
Bomm,
Rubi é mais bonito que quartzo
Diamante já foi carvão
Se ouro, se prata
Se argila já foi matéria-prima
Se no fim do arco-íris, pote de ouro
Tempestade no deserto
Poeira cósmica na pororoca
Queda d'água, depressão
Se cordilheira, geleira
Se fossa, mesmo que oceânica
Floresta chapada de olho na catarata
Se na preguiça do abutre
Tilápia e sardinha
Onix e turmalina
Se sim, se não
Se cobre mica
Se meteoro atinge orquídea (Tulipa!)
Urânio e alga marinha
Se sobrasse vida..