Crônicas, Contos e Poesias

Por Cica Carvalho

terça-feira, 3 de maio de 2011

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Paulistana!

30 de dezembro, Sampa deserta.
Viaduto do Chá em super produção de época. 
Raras pessoas transitam sem tanta pressa.
Raro momento da cidade limpa e vaidosa,
da sua concreta e solitária beleza.
São Paulo, minha cidade, 
geografia do meu coração!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Divorciada

Olhando para cada canto de sua história, ela não consegue mais se sentir `a vontade dentro dessa antiga e massacrada realidade. Eu tentei até onde me mantive digna, essa é a hora de ir embora! Seu rosto não está molhado, as lágrimas há muito se foram, o contrário, ela carrega um semblante sereno e seguro, quase frio e vazio, assustador para quem fica, seria mais cruel tentar lutar!
Amélia embrulha com plástico-bolha os objetos mais frágeis, porta-retratos, bibelots, cinzeiros de cristal. A prataria, a louça herdada por sua avó, suas roupas e seus objetos pessoais já foram na primeira viagem.  
O apartamento novo é exatamente como sempre sonhou, central, enorme e arejado, estilo Loft. Ela deixou quase tudo para trás, namorou cada móvel que adquiriu para sua nova vida. Pensou como habitar cada canto do seu grande Loft, como fazer daquelas paredes frias e impessoais seu novo lar, encheu de plantas, flores e samambáias. A mudança, as compras, os sonhos, tudo isso por muito a ocupou, evitando assim olhar para si. No íntimo ela tem pavor de encarar o luto, o fracasso, a perda... Caminha observando cada espaço, procurando cortar o pensamento, procurando ela em objetos esquecidos. Pega a luminária de tartaruga, senta no seu ex-sofá, na sua ex-sala para embrulha-lá, essa tartaruga foi presente da minha família, respira satisfeita e coloca o embrulho dentro da caixa com a etiqueta Frágil.
 Sem saber o que será de amanhã, sem olhar para o passado, ela tranca a porta, deixa as chaves, as mágoas e seu medo na portaria.


sábado, 27 de novembro de 2010

A Pintora

Onde será o começo, o meio ou o fim?
Como posso saber o que, exatamente estou vivendo? Perdida em seus conflitos, leva a mão a ajeitar a franja que lhe cai sobre a vista, analisa, encontra a certeza, e num gesto competente, inteiro e fragmentado ela impõe suas cores na tela, o pincél desliza, ricocheteando cores e formas. Ela recua para observar e entende um pouco mais sobre o que está pensando, o que está querendo. Falta vermelho, falta laranja, e verde, intensidade, falta vida!? Onde é o começo, o meio e o fim? Como posso saber? 
A luz do fim de tarde invade o amplo ateliê de tábuas largas, e grandes janelas escancaradas, deixando entrar a brisa cheirando a maresia. Sentada no chão, de frente para a tela, a pintora respira suas angústias para parir um pouco de vida. Onde está o fio condutor? Ela só sabe que o fim é quando seu coração alivia, quando respira, mas ele ainda anda a galopes, sua obra inacabada, suas mãos sujas e sua mente vazia. Errei no começo, na primeira pincelada, mas a arte é o improviso! 
Algo mais profundo, que eu não entendo quis que eu traçasse aquele primeiro risco, vertical, preto. Cai na minha própria armadilha. A noite chegou, a grande Lua subiu ao céu estrelado, e lá estava ela brigando com sua primeira pincelada, ao som de tiros na cidade maravilhosa. Ao som de tiros? Fogos ou tiros? Tiros, eles são secos, como um estampido, os fogos o som reverbera como uma onda do mar. São tiros! Aqui por perto... Ela fecha as janelas e as cortinas carmim, acende as velas do castiçal, coloca seu disco preferido da Piaf, no último volume, sorve o conteúdo de um pequeno copo num gole só, e rodopia louca, rindo pela grande sala, descalça, descabelada, agora nua. Pega a palheta, escolhe as cores de sua infância, pincel certeiro em sua mão esquerda, ela pinta uma cidade de outro tempo, sem tanques de guerra, sem helicópteros, fuzis e guerrilha, sem crack, drogas, violência, sem pedofilia, uma cidade que ela não conheceu, que só existe na cabeça dos apaixonados, nas telas e livros, no imaginário!
Suada e cansada, respira aliviada o Fim!

Foto: da Web.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Cigarro?

Emoções fáceis e baratas,
sentimentos efervescentes e palatáveis
tragando amor com a certeza da ilusão,
eu fumo a miséria e a minha solidão,
Eu fumo em homenagem a um filme de amor,
que teima, mas não estreiou!



sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Deus


Se Deus existe..? Digo que sim.., ele se mostrou para mim!!
Obrigada Senhor!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Estela

O quarto é o menor do casarão, fica nos fundos. Estela se esforça para mantê-lo sempre limpo e arrumado. No criado mudo, sempre perfumadas estão as rosas vermelhas. Um enorme quadro cobre a parte amarelada do papel de parede. Sentada em frente a uma penteadeira, ela arruma seus cabelos, enquanto se prepara para o momento tão esperado. Ela observa seu reflexo, se sente atraente, bonita, interessante. Com um meio sorriso de canto, sedutora passa o batom.
Estela acordou mais cedo do que o habitual, trocou os lençóis e escancarou a janela, respirou satisfeita o ar poluído do centro da cidade. O cheiro de urina e o lixo das calçadas, moradores de rua tomando banho no fio de água da sarjeta, crianças fumando crack. O dia passou lentamente e nada a incomodou. Ela escolheu cuidadosamente o vestido transpassado azul marinho de cetim, combinando com a liga, a meia de seda, e a roupa íntima. Tudo delicadamente preparado, pendurado no que restou de um mancebo. 
O quarto é pequeno, um pouco úmido. Algumas horas depois do combinado, cheirando a conhaque e cigarro ele chega, nunca foi de muita conversa, pendura o chapéu, e sem nenhum cuidado, enlaça Estela como uma presa e só a solta depois de satisfeito. Esbaforido e vermelho. Levanta da cama, fecha a braguilha, pigarreia, pega o chapéu, enrola quatro notas velhas e com um ar cínico enfia entre os peitos dela.
Ela continua deitada, com seu vestido de cetim amassado.
Ela queria ser uma estrela.

(tentei arrumar, mas acho que prefiro partir para o próximo!)

Foto: Garbo, da Web.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Piano bar

O gim desce queimando, com uma careta ela devolve o copo na mesa, sua cabeça já pesada, por outros tantos goles, seus pensamentos contorcidos, cai para trás levando seu corpo ao encosto da cadeira. Seu olhar como um voo de gaivota dá um rasante. Raio x desenhado na mente. As mesas estão vazias, nenhum jogador, nenhum estalo de bola.
O salão é grande com mesas em volta da pista, um pianista embala a noite, está escuro e algumas pessoas dançam. 
Catarina pensa em dançar, tateia em busca do copo enquanto observa ele. Num só gole vira a metade que restava. A essa altura Catarina não sabe mais qual o melhor caminho para se aproximar.
Ela acende um cigarro, usa uma elegante cigarrilha e investe num longo olhar revelador, mas a imagem completa do outro a paralisa. Desconcertada ela desvia, percebe que perdeu a chance, frustrada vira outro copo de gim.
Devidamente anestesiada e encorajada, quase cambaleando ela vai para a pista.
Ensaia alguns passos, os fáceis que não requerem grande equilíbrio, a música é envolvente e ele logo se aproxima e a tira para dançar. De olhos fechados para não se trair ela se deixa levar, como no cinema. Rodopiam pelo salão como se estivessem sozinhos. Os olhos fechados, o cheiro da pele, o contato direto, o coração batendo forte. Ela sente a sua respiração.
Catarina é viúva, quase bonita, traz no seu olhar o mistério de sua vida sofrida.
Eles dançam a noite inteira sem trocar uma palavra. No final da noite, o lápis borrado, o batom vermelho denunciando os vincos de sua boca, ela se olha no pequeno espelho, assustada tira o cravo vermelho murcho do seu cabelo, pega a sua bolsa e vai embora.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Escrever


Escrever é um estado de espírito,
Escrever é a fala da alma,
emocionalmente inspirada
Escrever é transcender os limites da razão,
do concreto, do palpável,
é surfar na raiz da emoção
Escrever é buscar palavras
que traduzem sensações,
pensamentos,
quase sempre compassados,
prontos como um raio
Escrever é publicar pensamentos,
eles adoram me trair
Escrever é morrer de rir
ou me molhar de tanto chorar
Escrever é um respiro do turbilhão de pensamentos,
de imagens, de vidas que passam,
e que me levam por alguns momentos
de extremo prazer a criar!