Crônicas, Contos e Poesias

Por Cica Carvalho

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Paulistana!

30 de dezembro, Sampa deserta.
Viaduto do Chá em super produção de época. 
Raras pessoas transitam sem tanta pressa.
Raro momento da cidade limpa e vaidosa,
da sua concreta e solitária beleza.
São Paulo, minha cidade, 
geografia do meu coração!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

A Divorciada

Olhando para cada canto de sua história, ela não consegue mais se sentir `a vontade dentro dessa antiga e massacrada realidade. Eu tentei até onde me mantive digna, essa é a hora de ir embora! Seu rosto não está molhado, as lágrimas há muito se foram, o contrário, ela carrega um semblante sereno e seguro, quase frio e vazio, assustador para quem fica, seria mais cruel tentar lutar!
Amélia embrulha com plástico-bolha os objetos mais frágeis, porta-retratos, bibelots, cinzeiros de cristal. A prataria, a louça herdada por sua avó, suas roupas e seus objetos pessoais já foram na primeira viagem.  
O apartamento novo é exatamente como sempre sonhou, central, enorme e arejado, estilo Loft. Ela deixou quase tudo para trás, namorou cada móvel que adquiriu para sua nova vida. Pensou como habitar cada canto do seu grande Loft, como fazer daquelas paredes frias e impessoais seu novo lar, encheu de plantas, flores e samambáias. A mudança, as compras, os sonhos, tudo isso por muito a ocupou, evitando assim olhar para si. No íntimo ela tem pavor de encarar o luto, o fracasso, a perda... Caminha observando cada espaço, procurando cortar o pensamento, procurando ela em objetos esquecidos. Pega a luminária de tartaruga, senta no seu ex-sofá, na sua ex-sala para embrulha-lá, essa tartaruga foi presente da minha família, respira satisfeita e coloca o embrulho dentro da caixa com a etiqueta Frágil.
 Sem saber o que será de amanhã, sem olhar para o passado, ela tranca a porta, deixa as chaves, as mágoas e seu medo na portaria.