Crônicas, Contos, Pensamentos, Poesias e Teatro

Contos, Crônicas, Poesias e Teatro
Pensamentos e Reflexões

sexta-feira, 5 de junho de 2020

A Bailarina


A BAILARINA

Cica Aguirre 
(dramaturgia em miniatura)



Personagens:
Mãe
Filha


Vestida com sua roupa preferida, de bailarina, a pequena menina  chora antes de ir para sua aula de ballet.
Sua mãe apressada prepara o café da manhã.

Mãe-   Menina não me deixe nervosa, porque ainda está assim, porque está tão emburrada? Rosângela colocando na mesa o copo de vidro com leite e uma fatia de cuscuz. Porque ainda não prendeu seu cabelo? Vamos, ande, assim vai se atrasar!

Menina de cabeça baixa não responde. Continua sentada na sua cama, olhando para baixo com sua roupa de bailarina.

Mãe-   Porque está assim? Não quer mais ir para aula? Você fez de tudo para conseguir. Até semana passada não me deixava em paz, não falava em outra coisa? Será que você vai ser sempre assim?

Menina continua calada

Mãe-   Dorme e acorda com essa roupa, já te falei que preciso lavar! Você está preocupada com a apresentação do fim do ano? Você sabe que damos um jeito, no final tudo da certo minha filha. Dona Jacira prometeu que podemos passar no galpão, alguma coisa ela sempre nos ajuda! Não é não? Porque essa carinha minha filha?
           
Menina continua imóvel olhando para baixo

Mãe-   Venha!? Vem minha filha, senta aqui do meu lado e toma seu leite! Eu te ajudo a arrumar seu cabelo, mas você sabe que está mais que na hora de você saber se cuidar.

A menina levanta da sua cama, passa pelo umbral da porta e senta no banco do lado da mãe.

Mãe-   Já quebrou meu único cinzeiro, já estragou o pé do sofa de tanto arrastá-lo do lugar e eu nem briguei com você, porque sei o quanto ama dançar. Mas agora que tem um espaço grande, bonito, que lugar bonito filha para dançar…., filha agora que pode abrir os braços e rodopiar na sala grande e com espelhos…, fica fazendo manha? Ai se eu tivesse essa oportunidade quando tinha sua idade…!

Menina-    Mãe sinto muito pelo seu cinzeiro, não quero mais ir para a aula. Juro que vou tomar cuidado e não quebro seu copo e nem o meu! Mas para lá não quero voltar, por favor mamãe, não quero, não quero!

Mãe-   Você não sabe a tristeza que sinto de ver que você não dá valor!

Menina-    Mãe, eu dou valor. Mas ninguém quer fazer par comigo, ninguém quer dar a mão para mim. Porque mãe elas não querem dar a mão para mim?

Rosângela se levanta. Cai o copo de café de sua mão e espatifa no chão.

Menina-      Desculpa mãn, não fica triste pode usar meu copo!




F I M
🤜🏼💔🤛🏾



Primeiro exercício proposto pelo dramaturgo Alessandro Toller, para o curso de Dramaturgia em Miniatura, SP Escola de Teatro. Curso on line pela pandemia, Junho/2020. (1/3)

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Quarantine´s Mind

Tentando..

Dormir e num susto acordar
Acordar e voltar a dormir
E só tentar não pensar...

O maior acontecimento do dia
A hora do banho
Fecho os olhos e sinto
Debaixo de uma queda de cachoeira
Ahh mamãe Oxun
Lava esse corpo e leva
Leva tudo que tenho e não quero ficar
Todos meus medos
Delírios e anseios
Lava mais que meu corpo
Limpa também a minha mente

Dormir e acordar
Acordar e dormir
E nesse meio tempo
Distrair, abstrair
Que esse tempo todo
Presa,
Em casa.., ahh eu posso pirar
e não estou sozinha
A piração pode ser coletiva!
e quem sabe o povo, em coro consegue
assim ter voz
a maioria e não essa minoria
Elitista que não representa
nem a metade da metade, da metade
da maioria!
O que em sintonia vamos falar?

Eu caguei para o Capitalismo
Sim eu amo meu iphone
Minha casa, minhas coisas
tudo que consegui juntar
A questão é que se não houver pessoas
Como circular o vil metal?

O seu presidente acha mais importante
A economia, abertura do comércio
Mais importante que o aumento
de covas nos cemitérios...!
ahhh desculpa,
não foram enterrados caixões com pedras!
Ai esse gabinete...!
Ahh esse presidente...,
Escolha sua, representante seu

Não meu!! Ahh não meu,
nunca-nunca eu!

Dormir e acordar
Acordar e quem sabe voltar a dormir
Sonho ou anestesia,
Perdida numa ilha
Ou no alto de uma colina
Deitada na grama
observando a revoada
das andorinhas..!

O mundo todo refém
No seu próprio cativeiro
Cada um,
Teoricamente, no seu próprio espaço
Pelo menos assim deveria ser
Verdadeiro
Cada um no seu esconderijo
Meu Deus como faço?
Para não pensar
Nas pessoas sem abrigo?
Sem ter onde dormir e acordar?
Sem saneamento básico?
Como cumprir o isolamento
Uma família morando num cômodo
Amontoados?

Dormir,
quem sabe sonhar e acordar
Tudo de novo,
o que mais posso
nesse meio tempo inventar?

Café fresco, estimulante
Muito? dor de cabeça!
Lençol limpo na cama
Roupa na máquina, funcionando!
Papel em branco. Canetas,
Por favor, não use a minha lapiseira,
Canetinhas, Carandaches, lupa 
Régua e borracha.., sempre as mesmas!
Dispensadas só quando acabam
Nada de desperdício
Livro; romance, realismo fantástico?
Técnico, desenho?
Seriado, filme, novela?
Música bem alta?
O que você mais gosta?

Dormir e acordar
Acordar e dormir
Preencher o tempo
Como quem preenche o vazio
Do pincél deslizando
No papel,
Chupa a tinta, borra
Escorrega a mão da linha
Nãoooo,
Não, não podemos sair
Não podemos e não queremos sair
Tudo feito e desenhado
Organizado para meu conforto
Oscilo entre inspirações criativas
Pânico retroativo, marasmo emocional
Fome absurda e medo de engordar
Dor nas pernas, falta de exercícios
Vontade de aproveitar ao máximo o tempo
Estudar, ler todos os livros
que lembro que preciso
Ou me deitar fechar os olhos e só
Acordar quando tudo isso passar!

(Em Tratamento)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

O Feitiço de Átila

Era um verão daqueles.., antes de sairmos rumo ao Parque Nacional Yosemite, dei minha última olhada. Ele estava descansando, com o olhar perdido, nem notou minha presença. Deixamos tudo que ele precisaria e no seu alcance.

Partimos, o ano era 2013, um ano agitado, estava em agosto e tudo já tinha acontecido ou quase tudo, filmei um seriado, enterrei meu Baba e deixei-o no meu armário, num lugar privilegiado, na prateleira lá em cima junto com as malhas. Vista!

Distanciei de tudo e parti para o sonho de conhecer Los Angeles, Califórnia! Livre! Sem planos, sem ansiedade. Logo que cheguei fui apresentada a Átila, ainda descabelada da viagem com bolsas na mão. Lembro bem do jeito desaprovador do meu anfitrião, mas pensei que era ciúmes! Minha amiga se desdobrando em manter tudo perfeito para Átila.

Os dias correram e aos  poucos fui entendendo a rotina da casa, o clima diferente o calor do deserto durante o dia e o vento gelado a noite. Retomando a viagem, estávamos há cinco horas na estrada, ela daquele tamanhico dirigindo um furgão, sempre foi assim metida! Chegamos no Parque no limite do tempo. Já tínhamos reservado nosso chalé, dentro das possiblidades havia umas 5 opções do mais roots à suíte. Mas queríamos aventura e pegamos o do meio do caminho. O chalé com “varanda”, quarto com dois beliches. O banheiro era fora e comunitário do camping do Parque. Eu adoro essa vibe, que a gente vai junto risandinho para o banheiro cheio de chuveiros, de havaianas, frasqueira, toalha e a roupa de troca. Me remete diretamente a minha infância.

No chalé do lado de fora um armário de ferro enorme e verde escuro fechado com cadeado. O parque tem muitos ursos e o monitor nos explicou que até os cosméticos tinham que ficar nesse armário do lado de fora, um tal de creme com cheiro de vanilla, chocolate ou morango com champagne que eles amam..., tudo guardado no armário pesado de ferro fechado com cadeado. Caraio, me senti dentro do desenho do Zé Colméia!

A estrutura da cabana era de toras de madeira e as paredes uma lona grossa, a porta de lona fechada por 3 amarrações, não me parecia que nos separaria de um urso faminto, apesar da Mari estar munida de todo armamento frio para nos proteger. Dormímos umas quatro noites com um olho aberto e outro fechado. Nunca nenhum urso passou nem por perto. Nada como o cheiro sanguinolento do bafo da onça a noite em cima da cachoeira da Fumaça na Chapada Diamantina, ou os lobos guarás de Ibitipoca que furtavam de cigarritos a barra de cereal, real, um pouco mais roots!

Passamos uns quatro dias nesse paraiso, mil trilhas, cachoeiras, piscinas naturais e seguimos para São Francisco, preciso voltar mil vezes para esse lugar, incrívellllll!!!! Compras, passeios, clicks, hotel, museus, almoços, king crab, lagosta, mala, estrada, casa!

Assim que chegamos escutei:
_Estou sem coragem de ver Átila, estou com uns pressentimentos..., Cicão vai lá dar uma olhada?
Fui na ponta do pé ver Átila, ele estava lá ótimo, já me lançou aquele olhar. Gritei:
_Pode vir, ele está vivo! Está aqui tranquilo, tomando Sol. Ela chegou, deu uma olhada, achou que ele estava meio tortinho, talvez seja a posição que ele sentou, mas está vivo e isso que realmente interessa.

Desfazer malas, máquina de lavar, máquina de secar, almoço, louça, descanso.., ai que Sol forte, vou dar uma olhada no Átila. O Sol estava torrando as perninhas finas de Átila, sem muito pensar passei a mão no spray para refrescá-lo, na terceira borrifada notei uma espuma na tela, estranhei o efeito e ele meio retesado. Estranhei mais, ele sempre se estica para melhor refrescá-lo. Borrifei mais, e ele recuou mais. Borrifei mais uma vez com suavidade. Olhei o spray e na minha mão estava o super veja mix -orgânico- de tudo para tirar craca de qualquer coisa. Caraaaaaaaaaio, eu joguei 3 a 5 sprayzadas de “soda cáustica” em Átila! e ele me olhando no fundo dos meus olhos se contraía em movimentos desconexos! Descontínuos.

No mesmo instante que notei meu engano já abri a torneira da pia, dessas de pia americana, que a torneira você desencaixa e sai um chuveirinho duns cinco metros, que dá até para lavar quintal. Em toda potência da torneira eu direcionei a água para Átila, que a princípio aumentou a espuma, mas segui confiante, firme como um pudim, sabendo que o segundo momento era lavar a espuma, o terceiro levar/zerar a espuma e depois o Sol para secar e a minha amiga nem ia perceber a merda que eu fiz!

Mas nãoooo, Átila foi se retesando, retesando, diminuindo, como uma aranha, olhando nos meus olhos, os membros dele se fecharam, foi ai que percebi que era melhor eu avisar minha amiga do que estava acontecendo.
_Mariiiiiiii eu matei o Átila!! Eu matei o Átila. Eu matei o Átila! Ai meu Deus eu ma-tei o Átila! Ela, descrédula:

_Calma Ci, é assim mesmo, parece que ele deixou de desenvolver um dos lados..., por isso está assim, capenga para um lado..! Como você ia matar Átila?
Fui tentando amenizar meu ato para minha consciência, acreditando num sopro de vida, um movimento milimétrico, um sopro de esperança.., mas nãooo ele estava torto e imóvel, sim eu havia matado Átila com requintes de crueldade, foram umas cinco apertadas no gatilho com extremo prazer!

Quando ela se deu conta, seguimos com o funeral e o enterro, sem muitas palavras, só a sensação que a amigue veio do Brasil fazer uma visita para matar a saudade e jogou spray de soda cáustica na cara dele...!

Isso foi em 2013 mas nunca esqueço de Átila e a praga que ele me jogou. Quem disse que naquele momento olhando no fundo dos meus olhos enquanto dava seu último suspiro, ele não estava pensando; eu vou me vingar, pode esperar...., já consigo escutar o fundo musical Pet Sematary do Ramones.

Daí mistura com minhas crenças malucas e tenho certeza que aquela formiguinha -graúda- e bunduda que um dia entrou no meu closet, eu ia dar aquela chinelada e me segurei...., vai que é a reencarnação do Cacau, ou da Mel ou do Billy..., não posso acabar com a oportunidade deles voltarem...., e deixei a formiguinha à vontade passeando pelo meu closet.

Dias depois estou em casa com uma calça pantalona de jeans pesado, cintura alta, 5 metros de tecido quando sinto uma picada ardida. Arranco a calça pelo pescoço!

Pô, não chinelei a formiga achando que poderia ser o CacauZuzu vindo me abençoar, mas nãoooo era Átila e sua vingança maligna! Ainda bem que estava em casa, se não ficaria de calcinha em qualquer outro lugar, no metrô, na rua, no super......! Afff, desculpe a mamay Zuzu, mas se aparecer outra formiga, aranha eu vou chinelar sem dó! Se quiser me rever melhor escolher joaninha -vermelha-, borboleta, tatu-bola, tartaruguinhas no mar, passarinho qualquer um..!

Antes de colocar as lembranças no papel resolvi ler um pouco sobre o Átila, lembro bem de Jorge 
desaprovar totalmente a presença de Átila em sua casa.

1) Eles podem comer beija-flores – tanto sofrimento da minha parte e descubro que ele come até beija-flor!!!
Além de se alimentarem de outros insetos, anfíbios e até répteis, os louva-a-deus têm o costume de comer pássaros de pequeno porte — o que inclui os belos e indefesos beija-flores. Até o ano passado, existiam poucos indícios dessa dieta incomum; porém, uma pesquisa publicada no The Wilson Journal of Ornithology mostrou que tal comportamento é comum dentre várias espécies de louva-a-deus ao redor do mundo. Foram documentados pelo menos 150 casos.

2) Eles podem aprender a pescar e até fazer um sushizinho!
Mostrando que variedade pouca é bobagem, os louva-a-deus também são capazes de comer pequenos peixes. Em outro estudo publicado no Journal of Orthoptera Research, cientistas tentaram descobrir se era possível ensinar tal inseto a pescar, colocando um exemplar macho adulto em um lago repleto de plantas aquáticas e cheio de barrigudinhos — aqueles peixinhos ornamentais que muita gente tem no aquário.
  O resultado foi incrível: o louva-a-deus aprendeu rapidamente a se mover pelas plantas e usar suas “garras” para apanhar os peixes quando eles se aproximavam e os ingerir. Os pesquisadores pontuam que, como os barrigudinhos não se movimentam como qualquer outra presa a que o louva-a-deus esteja acostumado, essa descoberta prova que eles são capazes de aprender novas técnicas complexas.

3) Eles são parentes das baratas -ahhhhhhhhh PQP isso eu não contava!!! Achava que pelo nome era algo Bíblico, sagrado!
Bom, isso pode não soar como uma novidade para você — afinal, basta observar os dois bichinhos para perceber alguma semelhança entre eles. Porém, as coisas não são tão simples assim na comunidade científica, e esse parentesco só foi oficializado recentemente, quando uma análise molecular provou tal relacionamento e colocou os dois insetos na superordem Dictyoptera — junto com os isópteros.

4) Seus corpos evoluíram para caçar -Átilaaaa seu filhote de cruz credo!!!
Não adianta: louva-a-deus são assassinos por natureza e ponto-final. Foi cientificamente comprovado que seus corpos evoluíram ao longo dos anos para que eles se tornassem os melhores caçadores da área. Isso explica, por exemplo, por que eles são capazes de girar a cabeça em 180 graus, observando se existe alguma presa ou predador em suas costas. Seu tórax alongado e as pernas flexíveis também auxiliam na caçada.
E, é óbvio, não poderíamos deixar de citar as suas patas posteriores, repletas de minúsculas espinhas que os ajudam a capturar seu alimento e manuseá-lo durante a refeição.

5) Eles só têm um ouvido -interessante, no meio das pernas...!
E, acredite ou não, o tímpano está localizado bem no meio de suas pernas. Bi-za-rro.

6) Eles são violentos até no sexo -Matei, matei e MATO DE NOVO!!!!!!!!!!!!!!!
Quase todo mundo sabe que, durante o ato sexual, é comum que a fêmea acabe decepando a cabeça do macho; porém, até o momento, ninguém consegue dizer com exatidão o motivo desse fenômeno. Alguns cientistas acreditam que, na verdade, o que ocorre é um sacrifício voluntário para que a futura mamãe tenha nutrientes suficientes para a sua gestação — garantindo, assim, a saúde dos ovos e a continuidade de seus genes.





terça-feira, 31 de março de 2020

Quarentena #dia18


_ Já decidiu se vai me matar com as flechas ou com alguma faca?

Colocando o pânico de lado, confesso que minha vida não mudou muito. Trabalho esporadicamente, sou atriz sem contrato, trabalho quando estou em cartaz no Teatro ou fazendo testes de publicidade, algumas vezes pegando o papel e gravando 1 ou 2 dias. Cinema e TV para cada teste 2 dias, um para preparo outro para captação e se pegar o job 1 mês de preparo e 1 mês de captação, por isso fico muito em casa!

Minha casa é super organizada, herdei da minha vó que me chamava para ajudá-la em trabalhos domésticos sempre contando histórias incríveis que faziam com que eu hipnotizada fizesse tudo que ela queria, assim aprendi e desenvolvi uma mania quase esquizofrênica de ter tudo organizado, por cores, tamanhos, tipo, minha lógica, como eu gosto e me sinto bem, muito bem, tão bem que posso passar dez dias sem sair de casa e nem perceber isso.

Hoje estou há 18 dias, louca para visitar minha mamay e meu padrasto. Penso todos os dias nessa possibilidade e vejo o dia cair sem ter feito qualquer movimento para isso.

São tantas coisas...! Primeiro o pavor de “furar” o isolamento deles.

Depois vem manter a ordem da casa, as três refeições diárias e suas ramificações, as roupas para lavar e estender, a troca de roupa de cama, de banho, depois dobrar tudo e guardar, a limpeza da casa..., eu sempre fiz tudo sozinha.

É sobre isso que parei para escrever. No segundo dia de quarentena meu marido me perguntou,

_ E agora que a casa não será mais só sua?

Todo dia acordamos tarde, tomamos café da manhã e ele vai para a produtora.

Eu tenho o dia todo para criar, desenvolver meus projetos, escrever textos, fazer ginástica, dançar rodopiando de braços abertos pela sala, cantar bem alto Maria Bethânia, arrumar a casa, ensaiar minha próxima apresentação, escrever mais um pouco, lavar roupa, ler, rever a novela que perdi aquela parte, editar material captado, abrir uma massa de torta, falar com minhas amigas que moram nas gringas...

Esse texto faz três dias que escrevo e deixo de lado, o grande problema que achava que tinha deixado para trás voltou com força total! A minha autocensura. Como posso escrever sobre minha rotina nos meus 50 metros quadrados, com tantas pessoas que dividem um espaço menor em maior número? Ou meu medo de engordar depois de 2 anos de treinamento diário, com tantas pessoas sem ter o que comer?

Como escrever crônicas da vida real se represento menos de 15% da população do meu Brasil? Isso me inibe muito, fico constrangida, não represento nem a metade, da metade da maioria, mas tem uma voz aqui dentro que não consegue calar. Espero que minha verdade não ofenda a realidade de ninguém, e que possamos com todas as diferenças desse Brasilzão enorme e desigual trocar e aprender uns com os outros.

Outro dia, antes da quarentena, numa visita a minha mamay eu vi um quadro incrível de arco e flechas encostado numa coluna da garagem, como se não fosse nada, junto com o fim de uma mudança. Registrei e subi, logo em seguida desci para ir até a papelaria. Dei de cara com a dona do quadro, sem pensar nada, perguntei;

_ E  esse quadro porque está aqui de canto, é para doação? Ele é absolutamente incrível! A senhora muito bonita e elegante, concordou comigo e me respondeu que estava entregando o apartamento em vinte minutos e não tinha o que fazer com o quadro. Passei a mão no celular para falar com o Mau e desliguei, #ninguémmandaemmim, decidida que aquele quadro era para ser meu, respondi com o coração desritmado;

 _  É meeuuu!!! posso tirar daqui e colocar na garagem da minha mãe?!

O quadro mexeu comigo, cresci escutando com muito orgulho histórias de uma Índia corajosa e guerreira, minha ancestral, agora que tenho minha árvore genealógica consigo ver exatamente a distância que tenho daquele arco e flecha, não é tão grande!

O Mau ficou dias olhando para aquele quadro meio desconfiado...,

_ Já decidiu se vai me matar com as flechas ou com alguma faca?

Respondi rindo que se fosse com a faca eu já sabia exatamente qual usar! A mesma que ele! A dos selinhos do Pão de Açúcar!


#dia18

domingo, 29 de março de 2020

A vizinha de cima

Um mês antes de completar 40 anos eu realizei o grande sonho da casa própria. Sonho que concretizará em 2000 e lá vai eu gagá sem dente quando pagar a última parcela do financiamento.

Feliz demais com meu apartamento dos sonhos, compacto, moderno, zero bala e meu! Mudamos dia 23 de dezembro, não levei nada da casa antiga, tudo novo. Sonho ou princípio de pesadelo? 

Uma saga desgraçada, tudo que eu imaginava era fantasia. Na hora do vamos ver um quer o sofá sessentinha o outro o sofazão extensível, um quer cinza o outro caqui e assim por diante, uma verdadeira guerra para cada detalhe.

Hoje a gente não briga mais. Um sábado desses fomos numa loja de móveis e em menos de uma hora escolhemos o novo sofá?!

Eu já namorava o sofá há anos e achei uma super evolução que conquistamos depois de seis anos de corpo a corpo, mas me enganei, segundo ele, não quis opinar sobre o modelo e a cor solar do novo sofá porque sabe que não adianta argumentar..!

Quando ele perguntou: _É esse? Eu jurei que ele tinha amado o sofá sem braços, laranja/terracota. 
Eu tenho certeza que ele vai perceber que foi a melhor escolha! 

Voltando para o apartamento 13, achar minha nova casa não foi muito fácil, tudo que eu via eu amava, podia estar caindo aos pedaços, alienado, naquela rua famosa de enchente e eu saía apaixonada, sorte a minha ter alguém para me trazer a realidade. Cheguei a achar que era má vontade, mas esse ap que moramos foi ele que achou e me enviou. E eu encaminhei para a corretora: Cleusa, que pena que não deu certo o da Caiowá, pelo menos sei exatamente o que quero, antigo e espaçoso, veja esse link, você consegue marcar uma visita?

No link um apartamento moderno e minúsculo, exatamente o contrário do que pedi, sem me contrariar ela marcou a visita. Entramos e eu tive que colocar meus óculos escuros, muito Sol, face norte. O Mau já olhou para mim: _ Shiuuuu, não fala nada!

Uma semana depois, dia da Consciência Negra recebo o telefonema da corretora, me parabenizando que a proprietária tinha aceito minha contraproposta. Que dia! para sempre no meu coração por todos os motivos envolvidos!

Bom.., mudança feita, apartamento dos sonhos mobiliado, muita coisa rolando e a vizinha trepando loucamente na nossa cabeça toda noite! Desculpa a palavra chula, mas o que ela faz é isso. Um bate estaca que não deve ter amor! A relação da vizinha estava tão acalorada que foi incomodando outros vizinhos, chegou ao zelador, síndico, conselho e finalmente ela recebeu uma cartinha avisando que todos ao redor estavam muito incomodados. Fico pensando, será que ela é meio surda?? Será que a cama dela é tipo daquele filme Delicatessen? De ferro e molas? Será que a fdp não pode colocar um tapetinho embaixo da cama? Ou investir numa cama box?? Será que me mudei para um cortiço?!?

O barulho cessou! Ufaaa, mudou de cama!

Ledo engano. Os quatro anos do meu sossego foram quatro anos de solidão da vizinha. Pois eis que agora, agorinha, o barulho voltou com força total, às três da manhã, às seis da manhã, sabadão às dez da manhã...!

O Mau abre e fecha a persiana meio bravo para mostrar que acordou. Eu já sou mais direta. Pego uma vassoura e bato no teto no mesmo ritmo que ela bate na minha cabeça. Normalmente na terceira estacada ela pára e eu também e seguimos assim. Eu torcendo para ela casar logo e ir embora ou ganhar muito dinheiro e mudar para um apartamento muito melhor ou para simplesmente acabar logo!

Esse problema tão cotidiano fez por alguns momentos me arrepender da aquisição do apartamento. Vontade louca de processar a construtora! Talvez a culpa não seja só da vizinha vivendo seu pico hormonal! Onde já se viu construir um prédio sem essa tal de manta acústica!? (nunca nem tinha ouvido falar) Aqui o vizinho espirra e eu tenho que me segurar para não gritar:  _Saúuuude! Manta acústica, lembre disso também quando for fazer negócio!

Fiquei com isso na cabeça.

Nas férias interagindo com o casal da mesa do lado, muito simpático, bebericando, jogando papo e risada fora, descobri que a moça é mediadora!? Gentennnn, tudo que eu preciso é de uma mediadora, já me animei e contei meu drama da vizinha. Contei tudo e perguntei:  _Esse é um caso para mediação? Eu gostaria de processar a construtora!

Eles se entreolham com um riso malicioso e contaram que moram num dos melhores bairros de SP, num belo apartamento alto padrão, com manta acústica, um por andar, com tudo que o dinheiro pode comprar. Que o apartamento de cima foi comprado por um jovem casal, que reformaram por semanas, um quebra-quebra sem fim e agora eles têm que conviver madrugada adentro com a hidromassagem que o recém-casal colocou no quarto!

Percebi que meu problema está em todas as esferas sociais.

Constatei que a vizinha não liga muito em estar me incomodando, a última foi que ela gritou:
_ Horário comercial...!

Não posso fazer muito além de parecer rabugenta e contar essa história.
Coloquem protetor nos pés da cama! Tapete?? Ou reciclem a cama velha de ferro!!! Pelo amor de Nossa Senhora!!

Vizinha? (além disso, eeita que calcanhar pesado, hein??)                       

Kallas?

VTNC! 



Cica Aguirre

segunda-feira, 23 de março de 2020

Quarentena


Já organizei os armários da cozinha, vinte anos de quinquilharias entre os utensílios realmente necessários.

Já limpei o armário do banheiro, sensacional, só o que realmente uso e na validade. Achei uma tinta azul e lembrei de um antigo plano, está na validade!

No guarda-roupa sigo tirando peça aqui e ali, todas com pelo menos cinco anos sem uso, também já reorganizei várias vezes, disposição das prateleiras e conteúdo das gavetas.

Tantas coisas para fazer em casa. Tantas coisas que sempre quis ter tempo e não tinha.

Já lavei os azulejos da cozinha do teto até o chão, uma endorfina louca ver tudo brilhando, contraste triste do anterior opaco, ahh também dei brilho em todas as peças de aço inox.

Hoje atacarei a geladeira, atrás dela (medo) e forno. Rsrsrs sigo firme entre a certeza que tudo passará com mini ondas de pânico de que muitas pessoas irão morrer. Que nossas vidas não serão mais as mesmas.

Que precisamos de um tranco desses para ouvir os pássaros e entender a força de um abraço!

Vamos vibrar esperança, fé, amor, cura! Tudo vai passar e espero encontrar todos salvos, renovados e reconectados com a força maior que é a Natureza, os laços de sangue e de amizade que constroem quem somos, na nossa mais profunda raiz!

Somos parte de um todo que é um grão que faz parte de outro todo, que faz parte de outro e assim estamos todos conectados, essa é a verdadeira e real conexão que realmente importa para nossa evolução espiritual nesse plano. 

Fique em casa. Pense no todo, em todos e não em suas próprias angústias, estamos todos angustiados, só o poder do amor, esperança e fé nos tirará dessa realidade, nos libertará do nosso egoísmo e individualismo. Reze, faça vídeo chamadas e aproveite para organizar sua vida em todos os aspectos.

Fique em casa.

Mãaaeeeee?!? Fica em casa!!!!






segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

A Bolha


Desde que comecei a estudar teatro em 2003 e a trabalhar com publicidade, sempre visando lógico chegar numa estabilidade financeira, tento entrar em alguma "bolha", sem sucesso.

Trabalho faz 15 anos na mesma agência de casting, são umas queridas e eu continuo uma semvintém. Mas não me curvo. Mesmo com tantas negativas não consigo desanimar, acredito sempre que alguém em algum lugar pode estar procurando alguém exatamente com minha vivência e aparência. Esse otimismo me custa caro. 

Outra manhã, um sabadão estava eu sentada na minha posição matinal me distraindo no face quando apareceu a sugestão de amizade de um super ator e roteirista, caráaca e um dos donos daquele canal de humor fodão! Meu marido é diretor de um canal bombado do Youtube, infelizmente nada a ver com dramaturgia. E santo de casa não faz milagre. Ele recebe quase diariamente mensagens de pessoas pedindo trabalho ou para não esquecer..., bla bla blá!

Adicionei e o fodão aceitou, caráaaca 2, agora preciso me apresentar. Passei um dia pensando em o quê escrever para que pareça profissional e não uma cantada e mandei algumas-muitas linhas com meu vídeo de apresentação.

Lembrei de um post de uma produtora de casting pedindo para ator nunca entrar em contato com diretores, autores..., que existe um “mecanismo” para chegar até o diretor e autor e esse mecanismo é: cadastre-se no Elenco Digital!

Tenho algumas questões sobre esse mantra; como participo do elenco de tal produção, só estando cadastrada? Preenchendo o mais completo possível o cadastro? O meu é bombadão!? Como sei que estou participando desse ou daquele casting? Vejo os posts de chamada de elenco, sempre com cadastre-se no Elenco Digital e só. Teoricamente então eu faço parte diariamente de TODOS os castings que se enquadram no meu perfil e não me encaixo em nenhum?! Agora o site me oferece um plano pago. E nunca fui acionada para nada.

Bom, finalmente no segundo semestre de 2019, seis meses depois de eu entregar um vídeo de 1 minuto com cenas de dramaturgia, nada de publicidade, só dramaturgia. Tostines vende mais porque está sempre fresquinho ou está sempre fresquinho porque vende mais? Eu tentando entrar para dramaturgia ou conteúdo tinha que ter uma apresentação com cenas de dramaturgia. É a famosa experiência no primeiro emprego. Mas eu tenho cenas, muitas cenas de comédia que fiz para a TV de Israel, pois é, seriado em inglês com 13 episódios, sim, eu tenho! Mas aqui no Brasil isso é irrelevante, porque não faz parte da bolha!

Focando, seis meses depois do vídeo de 1 minuto eu consegui participar de três testes para seriados. O primeiro e mais intenso demorou três meses para me liberarem, assinei termo de confidencialidade, de disponibilidade, fiz vídeo, release, currículo, tudo na mesma hora que me pediram, fui editada, muito cogitada, mas não foi dessa vez. O segundo quando liguei para saber do primeiro, ouvi que não sabiam ainda nada do primeiro, mas que tinha aparecido outro muito melhor do que o primeiro, que era para eu torcer por esse segundo, a produtora só esqueceu de mandar meu material, fiquei rezando e torcendo para nada. E o terceiro fui chamada por outra casting que nunca tinha trabalhado e eu fiquei bem interessada em mostrar como sou disposta, disponível e desenrolada, produzi vídeo em inglês, editei e enviei dois dias depois e não recebi o retorno de liberação, eu que fui atrás da resposta. Quero muito postar os dois vídeos testes, quando lançarem os seriados eu posto.

Não é nada pessoal, todo mundo tentando dar o seu melhor, mas essa é a realidade do meu mercado, é bem difícil essa vida de tudo ou nada o tempo todo.

Foi intenso, foi incrível mas ainda não foi nada! E vamos em frente!



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Esse papo de Machismo e coisa de Feminista!!


Convido você que concorda com essa expressão a sair de sua bolha:

A mulher que trabalha a vida toda em casa, muitas vezes a contra gosto, cria os filhos e na “melhor idade” não tem renda própria? Às vezes uma mesada/ajuda?!

O cara tira uma amiga para dançar e se diverte mas quando sua mulher começa a dançar com outro cara, ahhh isso não! Fecha o tempo.

O comandante da polícia militar de algum lugar do nosso Brasilzão, fala em rede nacional que a vítima de estupro procurou por isso andando na praia a noite. Assim como um carro a 200km/h dirigindo numa estrada sinuosa encontra uma tragédia!

Juiz em Manaus culpa adolescente de 15 anos por estupro coletivo. Os réus confessaram o crime mas o juiz os absolveu!? A família da vítima tem que mudar de casa, cidade e talvez até de Estado!?

Estamos no ano de 2020 e ainda escuto que a culpa é da mulher que estava na praia deserta, da menina que estava de shortinhos saindo do baile funk. Da santa mamãe que não estava de olho na sua criança. Da menina que estava no lugar errado na hora errada!

E ABSOLUTAMENTE nada sobre o criminoso, o infeliz, tarado, desumano, monstro que acreditou que seu desejo é mais importante que a vontade, que a dignidade da outra pessoa.
O que alimenta essa estrutura patriarcal/machista é cada um que calado aceita e concorda com essa realidade.

Antes de torcer a boca, pesquise sobre feminicídio, o que é e seus dados estatísticos. Assustador.

O feminismo não quer subjulgar, suprimir o homem.
O feminismo quer igualdade, dividir o peso, somar as forças!
Multiplicar.
É isso que nós mulheres sabemos fazer! Feministas amam seus pais, filhos, irmãos, primos e amigos.
Seu parceiro!
O feminismo quer respeito, equilíbrio, equidade!



quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A vida no bairro..!

-Ahhhhhh Graziela, sua piranhaaa, vagabunda!!! Aiii que quando eu te pegar arranco tua pele e frito!! Grita Dona Lambona, nossa simpática e amistosa vizinha de muro.
Na banca de jornal da pracinha finalmente conheci a piranha, vagabunda da Graziela, uma menina de uns 9, 10 anos, mulata clara, alta, bonita mesmo, olhos espertos e os cabelos esticados num birotinho no topo da cabeça, como se não gostasse mesmo deles.
Ali no terreno vizinho, nasce, cresce e morre geração atrás de geração de Lambões. Lambão mãe, filho, vó e vô e agora fui apresentada a mais nova Lambão, uma belezura sem fim de bebê. 
E os batuques de domingo fim de tarde? Vizinhos de fundo da família. Já me animo e começo a dançar, meu marido me segura;
-Dançar não, né!? Imagina se baixa, se chama alguma coisa, já é um Satanás por si só, imagina se cola alguma coisa ruim, o que vou fazer?!
Sento de novo na minha confortável cadeira de pescador de frente para minha TV-varanda. Mas o batuque só aumenta a intensidade! 
Fui batizada na Igreja Católica Apostólica Romana e me perverti, mas não falo de religião! Aqui a escrita é LAICA com as bênçãos de todos os Santos e Orixás!  
Cica Aguirre
2019

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Ao feminino!!

Aqui o café é sem adoçante, sem açúcar
Assim mesmo, do jeito que as coisas são
Hoje não tem peeling, estou cheia de ideias
Re-construindo velho sonho
Juntando os cacos do meu retrato
Refinando o faro e abrindo o canal
Deixando vir o que fluir
A lágrima é muita salgada, caralho!
Queima mais a minha pele
Hoje acordei inspirada, ando tão apaixonada!
Insônia de madrugada estou tranquila
639-net e no segundo caso
já estou dormindo,
sonhando com Charles Manson...
Tate, preciso de mais tempo!
Mais tempo!
Fortaleço e me preparo, para essa nova era
de luta, de resistência; Liberdade e Igualdade!
Força para todas as mulheres!
Às enclausuradas pelo medo,
que se faça a Libertação!
O empodeiramento espiritual e material
Força e coragem para a minoria
Repreendida e esmagada
Esquecida!
Força para todas as mulheres
(que precisam apreender" a dizer não!)
Ahhh a polícia do Rio perdeu as fotos, a única prova?
E se a vítima fosse da sua família?
Justiça para a guerreira,
Nossa bandeira!
Não vamos deixar cair no esquecimento,
Marielle, SEMPRE PRESENTE!

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Meninas e Meninos

Na minha casa minha mãe sempre foi o Sol, independente, linda e bem sucedida na carreira de procuradora do Estado que ingressou por concurso público, em 1978 já com seus três filhos.
Assim como minhas duas avós, a materna foi professora e a paterna se formou na primeira turma feminina de contabilidade. Minha bisavó materna foi oficial do cartório de registro civil de Pindorama, o cartório era do seu marido, mas isso não diminui o prestígio de seu trabalho, ela se aposentou aos 70 anos de idade na Secretaria de Estado da Justiça do Estado de São Paulo.
Mulheres absolutamente donas de suas vidas.
Bom, esse conceito de feminismo ou machismo nunca foi discutido em casa. Na minha concepção mais uterina sou fruto dessas mulheres e tenho no meu DNA esse traço forte de liberdade, independência que só fui perceber quando dividi minha vida com um homem.
Olhando pelo universo masculino devo ser a pior espécie de mulher, porque eu nunca percebi essa diferença entre homens e mulheres, além da anatomia.
Em casa o Baba e a Mutch tinham o mesmo peso. Os dois trabalhavam, os dois foram provedores e no final das contas minha mãe que dava a última palavra. Isso em nada incomodava meu pai, muito pelo contrário era claro como ele se orgulhava da mulher que tinha! E com esses exemplos formei meu caráter.
Dentro desse ambiente sem tanto contraste entre o feminino e o masculino, eu cresci. Cheguei na idade de namorar e cada tolhida que eu recebia de algum namorado, sempre estava meu pai por perto para me lembrar que ninguém manda em mim, que eu jamais vou fazer o que eu não estiver afim, me ensinou a dizer não, chega ou não quero mais e se precisar um bom empurrão! Ele me ensinou que posso escolher.
Lembro da época das festas de bailinho, meio para o fim da década de 80, as meninas ficavam sentadas de um lado e os meninos do outro, as mais populares dançavam a festa inteira. Eu sempre fui das primeiras a “ser tirada para dançar’’ e apoiada em algum ombro rodando lentamente pelo salão eu sem querer observava as meninas que passavam a festa sentadas esperando alguém para dançar e no final iam embora chorando. Eu não entendia porque elas simplesmente não levantavam e tiravam o menino que estavam interessadas? Porquê esperar?
Tive a sorte de nascer de uma família Matriarcal, sorte e azar, Matriarcal porque meu avô juiz teve um infarte fulminante em 1976, quando eu tinha um ano de idade e minha vó com pulso firme seguiu comandando a família. 
Mas quero mesmo é falar do meu PAI, que homem maravilhoso que ele foi. Era o primeiro e mais fervoroso incentivador da minha mãe. Ele era diferente de todos os pais. Lembro que ia me buscar nos bailinhos e aceitava dar carona e encher seu Ford Landau com destinos absolutamente opostos, centro, Lapa, Vila Mariana...., ele não estava nem ai, ia fazendo a maior bagunça. E lembro muito de ele perguntar -sempre- se “fiquei” com o menino que eu gostava. Esse era meu pai, sempre quis que eu fosse quem eu sou e não o que a sociedade espera.
E assim foi me orientando.., se me toliam, me seguravam, eu escapava, ele me ensinou a saber exatamente o que não quero e diferente da grande maioria de pais, o conselho era sempre; pula fora filha! Ele me ensinou também a fazer tabelinha, um círculo em vermelho nos dias, no seu diário, assim mesmo sem esticar muito o assunto. Hoje percebo que ele era um pouco ciumento. Casei depois que ele desencarnou! ehehheheheheh
Meus pais, minha criação e exemplos que tive são responsáveis pela FEMINISE que sou! Sem esquecer a GALINHA que fui, porque mulher que troca muito de namorado era galinha! Mas na minha casa tinha outro nome; AMOR PRÓPRIO!
Atrás de uma galinha ou feminista acredite tem um grande pai -inovador-, moderno, a frente, genial que acreditou que sua menina poderia ter todas as possibilidades como qualquer menino.
Pensem nisso!



segunda-feira, 17 de junho de 2019

Eu sobrevivi e estou aqui!

Tudo que está aqui é real, não vou citar nomes.

Dezembro do ano passado fez 10 anos que minha vida mudou.
Nunca tive muitas amigas, mas as poucas que tenho estão comigo até hoje, me orgulho disso e levo a sério.
Dezembro de 2008 estava dirigindo nos Jardins quando recebi uma ligação, atendi era a irmã da minha melhor amiga.
-Cicão?
-Oieeeê
-O que você está fazendo?
-Dirigindo
-Você pode encostar o carro??
-Pronto fala!
Silêncio......; - a XXXXXX morreu!
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Dezembro a vida vira uma festa, estava perto do aniversário de 60 anos da minha mãe, perto do Natal. Um ano terrível que muitas coisas aconteceram, perdi minha prima irmã, minha afilhada e minha gatinha, tudo num intervalo de poucos meses!
Dez anos para tomar coragem e falar sobre o que aconteceu.
Voltando, era dezembro minha melhor amiga tinha vindo de longe, do outro lado do mundo com seu marido e um casal de filhos, para finalmente morar no Brasil, Sampa, perto de casa, isso estava me causando muita euforia, desde que saiu da faculdade ela foi viajar pelo mundo e nunca mais voltou, só de passagem, mas dessa vez estavam aqui para ficar!
Mudaram para um belo apartamento muito perto de casa, deixaram tudo lá e foram para a Bahia, eu lembro que não gostei nada dessa ideia, porque mal tinham chegado, consegui ver a pequena deitada em sua nova cama, ela já não mais tão pequena, 3 anos e 11 meses! Foram para Bahia para passar dez dias e voltar para o aniversário de 4 anos dela, eu já estava com meu convite em mãos, primeiro aniversário no Brasil com direito a Buffet e tudo mais. Esse convite ainda tenho, nunca pude usar.
Difícil falar sobre isso, nem cheguei no ponto da questão e já estou soluçando, segurando a toalha de rosto.
A minha afilhada foi violentada e morta uma semana antes de completar quatro anos pelo jardineiro da pousada que eles estavam hospedados, pousada de uma “amiga” nossa.
Não dá para explicar o que foi essa violência e o quanto mais foram agredidos. Eu preciso falar, não dá mais.
Desliguei meu celular sem entender nada. Não sabia o que fazer, não conseguia entender o que tinha acontecido.
.....
Pediram para eu ir até o apartamento deles para “esconder” tudo que tinha dela pela casa, abri a porta e dei de cara com um pé do tênis rosa.
Estou revivendo essa história porque cada dia mais aumenta a discussão sobre ESTUPRO e tudo que vem junto. Porque a vítima sempre é a primeira culpada? Seja pela roupa, por onde está, por quem anda, por quem é, por seus modos e nunca pelo infeliz que não soube se controlar!? Eu acho BIZARROOOO ter que escrever tudo isso, mas simmmmm eu preciso! QUANDO MINHA AFILHADA MORREU VIOLENTADA, ASFIXIADA E JOGADA NUM MANGUE A SOCIEDADE BRASILEIRA CONDENOU A MÃE, a culpa foi da mãe que não estava olhando, que não cuidou direito, que estava usando drogas.., tudo que você pode imaginar para destruir a imagem de uma mulher, nesse caso da minha melhor amiga, mãe zelosa que me orgulho tanto.  
Eu quero contar essa história, eu preciso!
Eles voltaram para São Paulo, com a pequena no caixão, o pai desconfiou que tinha algo muito estranho, mas a polícia baiana deu um laudo de afogamento. A rede record foi até a delegacia apurar o que aconteceu e o imbecíl do delegado ficou bem a vontade porque a câmera estava abaixada, mas não desligada; -isso acontece todo dia aqui! A culpa é da mãe que não estava olhando! E acredite isso foi reverberando até nas rodas paulistanas. Eu JURO que ouvi até da minha colega do teatro e seu marido que essa história é muita estranha e mal contada! Sempre acompanhava um relato de alguém conhecido falando alguma coisa pejorativa... Era só o que as pessoas conseguiam falar. Como eles estão, os avós, como você está? Nunca! Somente o julgamento....., tudo muito estranho e sempre com um distanciamento, mostrando o desconforto. Desculpe o desconforto foi nosso que vivemos isso! Não de vocês que não queriam nem saber o que aconteceu.
Estranha mãe, estranho pai, tia, madrinha, todo mundo estranho e a gente feliz! Sim não fomos acolhidos. Ali não foi embora só uma vida, mas muitos sonhos e esperanças, morreu a mãe que eu poderia ser.
O velório foi de mentira, porque suspeitávamos do crime então não podia enterrar.
A irmã de uma outra grande amiga nossa conseguiu mexer mundos e fundos e passamos a investigação para São Paulo, porque queríamos outro laudo, afogamento não era verossímel, ela sabia nadar. Ela conseguiu e no dia 15 de janeiro saiu o laudo da autópsia aqui de SP, nunca vou esquecer porque era meu aniversário. Ela não tinha morrido afogada, a gente sabia.
Uma tarde toca o telefone é uma delegada da Bahia, lembro exatamente do nome, mas estou em respeito a minha amiga, sem mencionar nomes, essa mulher maravilhosa, quis ajudar a minha amiga, se interou de tudo e começou a investigação. Os pais sempre souberam quem era o assassino, lembro da minha amiga ligando para a dona da pousada para dizer pelo amor de Deus, cuidado com as crianças, era férias!! Eu liguei para uma amiga que foi para lá, duas semanas após o assassinato para pedir para ela não ir com sua filhota e chegaram aos nossos ouvidos até que como peritos “brincaram’ de simular a cena do crime-!?!
A gente sabia e se preocupava com todas as crianças que estavam lá na pousada sob o olhar do assassino!
Carnaval chegou e os pais foram convocados para ir até a Bahia para depor, a delegada já tinha esquematizado todo o plano. Foram até a pousada, os hóspedes que estavam lá já tinham seguido viagem, ainda mais depois da tragédia, o que tirava pela metade a possiblidade de fazer justiça. A delegada convocou TODOS os funcionários a acompanharem na delegacia, a tal que era nossa amiga e proprietária da pousada NÃO queria liberar os funcionários e falou em alto e bom som, quem vai pagar a condução de volta deles? A menina foi afogada culpa da mãe que não estava de olho.
Entraram no carro minha amiga, o marido no banco do passageiro, a delegada separando o assassino da mãe sem a filha. Lembro da minha amiga falando, ele foi o caminho inteiro batucando com a mão a música que estava tocando no rádio e ela pensava..., não pode ser ele! Ele tem uma filha da idade dela!
Na delegacia o jardineiro depois de meia hora de contradição caiu de joelhos e confessou tudo com riqueza de detalhes. Direto para a cela, sem dinheiro para condução de volta para nunca mais!
Anos se passaram até o julgamento, a família já bem longe do Brasil voltou para o tribunal, eu não fui. Ele foi condenado, direto para o presídio e na primeira rebelião fazia parte da lista dos que foram queimados com o colchão. Alívio?? Não! Não teve alívio para ninguém.
Mas justiça foi feita nossa pequena não foi em vão, o demônio confessou diversos casos, minha amiga foi uma heroína que tirou esse sujeito da rua, o resto são as escolhas dele.
Já minha amiga, sua família, eu, não tivemos escolha, apoio, carinho. Fomos isolados porque o clima estava PESADO, e estava mesmo, o meu namorado da época não me acompanhou no velório..., muito pesado.
Percebi como as pessoas podem ser egoístas e algumas cruéis.
A vida seguiu, minha amiga engravidou de novo e quase todos os dias passava a tarde em casa, primeiro ela e a barriga e depois ela e a bebê. A gente se apoiou muito, chorava, ria, se revoltava e continuava! Quase que isoladas.
Um dia TIVE que voltar para aquele lugar, esse lugar foi um dia o meu Paraíso; Trancoso conheci levada pelo meu tio, médico que se formou na USP e na viagem de formatura conheceu uma bela baiana e por ali ficou, não ficou muito porque também foi assassinado lá. No Paraíso sem Lei. Pausa,







mas lá estava eu, Páscoa, caraaca, Páscoa, perdão, igreja..., fui lá encomendar uma missa, me direcionaram para uma senhora que morava do lado da casa em que eu estava hospedada. Por acaso era a ex babá do meu anfitrião.
Fomos muito bem recebidos com cafezinho adoçado com açúcar cristal e bolo de aipim. Falei para ela que gostaria que rezassem pelos meus na missa no domingo de Páscoa e ela levantou para pegar um caderninho para eu escrever o nome. Eram os nomes, meu tio, minha prima e minha afilhada, TODOS os três desencarnaram lá. Todos meus. Quando ela leu os nomes perdeu a cor. Você conheceu o Dr Pérsio? Eu respondi feliz e efusiva, simmm meu querido tio. -Essa menina aqui brincava aqui em casa com meus netos e esse moço que prenderam é inocente e meu sobrinho. Ele confessou mas para ela era inocente, eles são daquela religião que a culpa é do Satanás que encostou e não do próprio assassino. Por essa e outras não simpatizo com evangélicos!
Domingo de Pascoa chegou, acordei às seis da manhã, tomei banho e vesti um vestido branco e alvo, guardado para isso. Fui sozinha assistir a missa toda, como era uma data especial estava padre, bispo e arcebispo, como uma carola vivi a Missa toda esperando escutar a homenagem aos meus mortos, a missa acabou, ninguém falou nada, vários, vários nomes, e não os meus, porquê?? Fiquei sentada sem reação até esvaziar a igrejinha. Após a missa tinha um café da manhã comunitário e caminhei para lá, na verdade era o meu caminho, mas dei de cara com os 3 sacerdotes, e fui como paulistana desenrolada que sou perguntar para eles porque ignoraram meus pedidos de prece, para três pessoas que deixaram suas vidas naquele local.
Se entreolharam, não me responderam e com um olhar desaprovador o mais novo, o Padre encostou a mão no meu peito e me empurrou!! Pedindo para eu me afastar. Essa é a imagem que eu tenho da MARAVILHOSA IGREJINHA QUE TODO MUNDO TIRA UMA BELA FOTO! Fake como a era em que estamos vivendo!
Vivemos num pais que a mulher sempre é subjulgada, e o pior pelas próprias mulheres. Hoje eu tenho no máximo cinco amigas, as que conseguem se posicionar, odeio covardia, odeio machismo, nossa sociedade é ridícula e não acolhe as mulheres vítimas. Infelizmente lembro de tudo de cada comentário desconstrutivo, de cada julgamento. E lembrarei eternamente de quem foi forte e soube segurar o tranco do nosso lado!
A vida tem muitos momentos difíceis e o que aprendi que para você conseguir evoluir tem que viver e olhar de verdade para aquilo, não adianta disfarçar, fugir, evitar. Eu estou aqui e vivi esse tormento, sobrevivi, perdi muitas pessoas e oportunidades mas entendo HOJE que era só uma limpeza para eu enxergar melhor o meu caminho!