Eu tinha 13 anos quando fiz minha primeira viagem sozinha para o exterior, dessa vez não era o acampamento Coyote que eu amei
muito, mas segundo os responsáveis pelo acampamento eu não tinha o perfil para
isso. Eu amei e ainda amo com força acampamento, mas acharam que eu não tinha o
perfil, assim como a professora de biologia naquela viagem para Ubatuba…, a história do perfil! Porque, qual é o perfil para sociabilizar? Eu sou muito tímida, pode acreditar, se um dia me viu rindo solta
em algum lugar eu poderia estar muito animada ou mamada, ou no coração da minha
turma, entre os que me acolheram ou estava disfarçando, lutando muito com minha
timidez.
Eu tinha 13 anos quando fui para
Disney com um grupo do Colégio Dante Alighieri, todos super privilegiados. Meus
pais tinham acabado de se separar e mal acreditei quando minha colega Isabela
me contou na escadaria de degraus miúdos do sino da escola, que eu era a única que o pai tinha pago a viagem de todo o grupo.
Eu tinha 13 anos quando em um dos parques o
grupinho entrou num estúdio de fotografia que oferecia por 19 dólares uma
montagem de capa de revista, lembro como se fosse hoje, talvez três opções; uma
tenista montada num saque, uma noiva de véu e grinalda segurando o buquê ou uma
gatinha Playboy. Estávamos na década de 80 e a Playboy era das poucas revistas com conteúdo para adulto e eu adorava ler Playboy de ponta a ponta escondida no escritório do meu
pai, porta com porta com meu quarto de boneca, na edícula da casa que nasci no bairro Vila Nova Conceição em São Paulo.
Eu tinha 13 anos e nada no bolso
naquele momento, mas um garoto, o mais velho do grupo me ofereceu emprestado o
dinheiro para fazer a foto e eu aceitei. Fiquei com vergonha de fazer a noiva, mais vergonha
ainda da tenista que precisava de acting
para clicar então fui para o lugar comum, uma blusa tomara que caia fechada com
velcro atrás e um boá, frufru, sei lá
o nome, sei que qualquer menina que se depara com aquilo sente vontade de
tocar, se enrolar, fazer carão e certa da minha escolha fiz o clique, sem pensar no
conteúdo da mensagem. Eu tinha 11 anos, era muito criança, não sabia nada além
do meu mundinho de menina branca privilegiada classe média, protegida e
caçulinha, super mimada por todos os lados!
Mas naquela viagem descobri muita
coisa, foi a ponta de um iceberg que até hoje está me surpreendendo. Fiz a foto
super sem graça com todo o grupinho observando e cochichando, essa foto, e continuamos o
passeio pelo parque…, a noite chegou e finalizamos o dia assistindo um belo
show de fogos que nunca vou conseguir esquecer! Pela beleza, grandeza digna da
Disney e porque foi a primeira vez que senti o ódio masculino, sem entender
nada. Hoje entendo exatamente o que foi aquilo e por isso fico organizando
pensamentos para tentar explicar aonde está minha luta.
A vida correu, muita coisa
aconteceu, e nunca perdi aquele sentimento de impotência, quando aquele menino
mais velho que foi legal e me emprestou o dinheiro, depois de poucas horas me cobrou, me
xingando de puta. Eu tinha 13 anos. Antes disso ele brincando com uma cadeira de
rodas do parque (anos 80) perguntou se eu queria experimentar, confesso que até
hoje se vejo uma brinco um pouco, falo sem remorso porque tive uma em casa, a
do meu pai e várias vezes usei como mobília! Eu aceitei brincar, os
fogos estavam estourando no céu, o clima era quase de Réveillon, festa mesmo, eu
aceitei, ingenuidade e risadas altas, o vento lambia meu rosto e esticava meu
cabelo, a velocidade foi ficando cada vez mais rápida e estranhei, olhei para
trás e o moleque tinha me empurrado com toda força barranco abaixo, passei
atropelando e assustando várias pessoas que estavam sentadas olhando o show. Eu
me machuquei, mas na hora nem senti, muita vergonha, humilhada mesmo de
levantar daquela cadeira e sair mancando enquanto assustadas as

pessoas
tentavam me ajudar achando que eu era portadora de alguma deficiência.Chegando no Hotel aquele cara que eu
comecei a ter muito medo veio me cobrar os 19 dólares, arrancou da minha mão o
envelope pardo com todo o meu dinheiro e sei lá quanto ele pegou, devolveu o resto
jogando na minha cara as notas e me chamando de puta!? Eu tinha 13 anos. A vida
seguiu e não morri por isso, também nunca esqueci. Essa marra que muitos não
entendem, que me perguntam da onde vem, vem dai, de uma vida
inteira me defendendo do macho dominante vaidoso e rejeitado, daquele que eu
não quero.
Quando assumo a característica de
que sou bonita, sou atraente sei o peso que isso é e foi na minha vida, mas
hoje sei me defender muito mais e quero, preciso falar disso, a objetificação e
posse da beleza ou do que cada um julga ser belo.
Eu tinha 13 anos quando me chamaram
pela primeira vez de PUTA. Foi devastador na minha vida e ao mesmo tempo
libertador. Porque se eu já era puta com apenas 13 anos eu de cara percebi que
ser associada a essa palavra não tem nada a ver com o significado que ela trás.
Nos meus 45 quase 46 anos posso te
afirmar que se te chamarem de PUTA provavelmente você é uma mulher
interessante, bonita e que sabe o que quer e faz o que tem vontade. Essa é a
puta que fui, sou e sempre serei, puta, livre, puta-livre para fazer e ser quem
eu quiser!
Eu tinha apenas 13 anos quando
descobri a minha luta. Era julho de 1988.
(me perco nas datas, mas o carimbo do passaporte não me deixa enganar! -1988-)
São Paulo, 27 de dezembro de 2020.