Crônicas, Contos e Poesias

Por Cica Carvalho

sábado, 27 de novembro de 2010

A Pintora

Onde será o começo, o meio ou o fim?
Como posso saber o que, exatamente estou vivendo? Perdida em seus conflitos, leva a mão a ajeitar a franja que lhe cai sobre a vista, analisa, encontra a certeza, e num gesto competente, inteiro e fragmentado ela impõe suas cores na tela, o pincél desliza, ricocheteando cores e formas. Ela recua para observar e entende um pouco mais sobre o que está pensando, o que está querendo. Falta vermelho, falta laranja, e verde, intensidade, falta vida!? Onde é o começo, o meio e o fim? Como posso saber? 
A luz do fim de tarde invade o amplo ateliê de tábuas largas, e grandes janelas escancaradas, deixando entrar a brisa cheirando a maresia. Sentada no chão, de frente para a tela, a pintora respira suas angústias para parir um pouco de vida. Onde está o fio condutor? Ela só sabe que o fim é quando seu coração alivia, quando respira, mas ele ainda anda a galopes, sua obra inacabada, suas mãos sujas e sua mente vazia. Errei no começo, na primeira pincelada, mas a arte é o improviso! 
Algo mais profundo, que eu não entendo quis que eu traçasse aquele primeiro risco, vertical, preto. Cai na minha própria armadilha. A noite chegou, a grande Lua subiu ao céu estrelado, e lá estava ela brigando com sua primeira pincelada, ao som de tiros na cidade maravilhosa. Ao som de tiros? Fogos ou tiros? Tiros, eles são secos, como um estampido, os fogos o som reverbera como uma onda do mar. São tiros! Aqui por perto... Ela fecha as janelas e as cortinas carmim, acende as velas do castiçal, coloca seu disco preferido da Piaf, no último volume, sorve o conteúdo de um pequeno copo num gole só, e rodopia louca, rindo pela grande sala, descalça, descabelada, agora nua. Pega a palheta, escolhe as cores de sua infância, pincel certeiro em sua mão esquerda, ela pinta uma cidade de outro tempo, sem tanques de guerra, sem helicópteros, fuzis e guerrilha, sem crack, drogas, violência, sem pedofilia, uma cidade que ela não conheceu, que só existe na cabeça dos apaixonados, nas telas e livros, no imaginário!
Suada e cansada, respira aliviada o Fim!

Foto: da Web.

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