Crônicas, Contos e Poesias

Por Cica Carvalho

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Estela

O quarto é o menor do casarão, fica nos fundos. Estela se esforça para mantê-lo sempre limpo e arrumado. No criado mudo, sempre perfumadas estão as rosas vermelhas. Um enorme quadro cobre a parte amarelada do papel de parede. Sentada em frente a uma penteadeira, ela arruma seus cabelos, enquanto se prepara para o momento tão esperado. Ela observa seu reflexo, se sente atraente, bonita, interessante. Com um meio sorriso de canto, sedutora passa o batom.
Estela acordou mais cedo do que o habitual, trocou os lençóis e escancarou a janela, respirou satisfeita o ar poluído do centro da cidade. O cheiro de urina e o lixo das calçadas, moradores de rua tomando banho no fio de água da sarjeta, crianças fumando crack. O dia passou lentamente e nada a incomodou. Ela escolheu cuidadosamente o vestido transpassado azul marinho de cetim, combinando com a liga, a meia de seda, e a roupa íntima. Tudo delicadamente preparado, pendurado no que restou de um mancebo. 
O quarto é pequeno, um pouco úmido. Algumas horas depois do combinado, cheirando a conhaque e cigarro ele chega, nunca foi de muita conversa, pendura o chapéu, e sem nenhum cuidado, enlaça Estela como uma presa e só a solta depois de satisfeito. Esbaforido e vermelho. Levanta da cama, fecha a braguilha, pigarreia, pega o chapéu, enrola quatro notas velhas e com um ar cínico enfia entre os peitos dela.
Ela continua deitada, com seu vestido de cetim amassado.
Ela queria ser uma estrela.

(tentei arrumar, mas acho que prefiro partir para o próximo!)

Foto: Garbo, da Web.

Um comentário:

  1. Cecília, meu amor.

    Não sei porque desistiu de trabalhar seu texto Estela.

    Quando disse pra vc retrabalhar o final, seria para dar mais imagens e tonificar as suas próprias idéias.

    O texto vc já tem e é muito rico. Atente-se aos detalhes e repita os no decorrer do texto transformando-os em símbolos.

    Por exemplo:
    - rosas vermelhas no criado-mudo = Rosas vermelhas = Vermelhas = Vermelho
    - Estela queria virar estrela - Começo do texto = sonho / Fim do texto = morte
    - ELA é oposto de ELA - O encontro pode ser quase um duelo, alternando o focos com detalhes, como: Possui x sente
    Levanta x deitada etc..

    Amo seu texto e tenho um carinho muito grande.

    A título de exemplo, ousei trabalhá-lo para te mostrar uma possibilidade de efeito. Somente uma possibilidade, existem muitas, até mesmo as que vc já criou. O importante é criar um efeito. Vc já propôs: Estela= Estrela ,então: Estrela = Sonho e decepção;
    Decepção= tristeza, depressão, morte. Pronto, vc criou uma situação dicotômica, basta imprimir.

    Veja o que eu fiz e repito: A titulo de exemplo de estrutura. Seu texto é ótimo e nunca desista dele.
    Use os adjetivos a serviço da imagem. Ordene-os de acordo com as sensações. Nunca entregue-os todos de uma vez,
    acompanhe as reações das personagens e use os adjetivos como reação ou ação, senão eles se tornam julgamento do autor,
    enfraquecendo o texto, ok?


    Amo vc.

    Com muito carinho, do seu leitor.

    Paulo

    O quarto é o menor do casarão, fica nos fundos. Estela se esforça para mantê-lo sempre limpo e arrumado. No criado mudo, sempre perfumadas estão as rosas vermelhas. Um enorme quadro cobre a parte amarelada do papel de parede. Sentada em frente a uma penteadeira, ela arruma seus cabelos, enquanto se prepara para o momento tão esperado. Ela observa seu reflexo, se sente atraente, bonita, interessante. Com um meio sorriso de canto, sedutora passa o batom. Estela veio para a cidade grande porque queria ser uma estrela.
    Acordou mais cedo do que o habitual, trocou os lençóis e escancarou a janela, respirou satisfeita o ar poluído do centro da cidade. O cheiro de urina e o lixo das calçadas, moradores de rua tomando banho no fio de água da sarjeta, crianças fumando crack. O dia passou lentamente e nada a incomodou. Ela escolheu cuidadosamente o vestido transpassado azul marinho de cetim, combinando com a liga, a meia de seda, e a roupa íntima. Tudo delicadamente preparado, pendurado no que restou de um mancebo. 
    O quarto é pequeno, um pouco úmido. Algumas horas depois do combinado, ele chega. Nunca foi de muita conversa, pendura o chapéu e, sem nenhum cuidado, enlaça Estela como uma presa. Ela se entrega sem saber muito o que fazer. Cheirando a conhaque e cigarro ele a possui, ela o sente. Esbaforido, ele transpira e a aperta, ela olha para as rosas vermelhas do criado mudo. Vermelho, ele solta um gemido, ela o recebe. Satisfeito, ele levanta da cama, fecha a braguilha, pigarreia e pega o chapéu. Ela continua deitada, com seu vestido de cetim amassado. Ele enrola quatro notas velhas e com um ar cínico enfia entre os peitos dela.
    Ela queria ser uma estrela.

    Nem sei o que falar Paulo! Você é demais, não aguentei e postei sua AULA, fico lisonjeada de tê-lo por perto!! Pessoas como você, o Meceni, o Calixto, o Masetti fazem toda a diferença na minha vida..!
    Obrigada sempre,
    te amo horrores!

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