Crônicas, Contos e Poesias

Por Cica Carvalho

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Gleice

Eu matei o capeta disfarçado em mulher.

Um anjo pediu que eu matasse a encarnação do mal, um anjo, eu tive que matar aquela mulher, e ela tão bonita, tão jovem, mas o demônio se fantasia das mais belas formas para nos seduzir. Eu não matei, eu cumpri uma missão, uma missão designada por um anjo. Eu fui a escolhida. Entenda que eu não cometi um crime. Eu fui a escolhida. Ela era a encarnação do mal.

Ela era uma demônia, se mudou para nossa comunidade, trouxe aquelas meninas desavergonhadas para cá, para virar a cabeça de nossos maridos. Ela tirava os nossos homens e filhos de casa todas as noites. Alguém tinha que acabar com isso. Foi quando me apareceu um anjo, envolto de muita luz emanando paz, ele me disse, mate aquela mulher, elimine o mal da comunidade, é o único jeito de libertar a familia e manter os homens em casa.

Um anjo, bonito, de pele morena, olhos azuis celestes e cabelos negros. Ele tinha uma voz aveludada, que repetia, mate ela, mate ela, é a filha do mal, a semente da discórdia. Só você pode fazer isso. Mate ela e salve o mundo dessa prostituta, destruidora da família.

Naquela noite a Lua estava a poucos metros do chão, enorme, assustadoramente ao alcance da mão, as ruas estavam movimentadas, barulho de motor da motoca, latidos de cachorros, a bola do bilhar, a latinha abrindo, e as risadas das mulheres na casa vermelha. A noite era quente e abafada, toda aquela confusão estava me enlouquecendo. O pastor deu seu sermão para menos de dez pessoas. Saí do sermão vagando pelo perfume da noite, e de novo o anjo falou no meu ouvido, é hoje, vire aqui e vá até a casa, acabe com ela! Mudei meu rumo, a partir desse momento, não sei o que aconteceu, não fui levada pelas minhas pernas, sei que fui, passo a passo, me deixando levar por uma força muito maior e mais forte que minha vontade.

A casa estava cheia, mulheres de poucas roupas e vergonha, andando para lá e para cá, com taças nas mãos e cara de deboche, aquilo me fez mal, mas uma força muito maior me conduzia, e eu subi as escadas, nunca tinha estado lá, subi os trinta e sete degraus, caminhei pelo corredor, uma das portas era diferente de todas, tive certeza, é lá que a demônia se esconde e trama contra nós. Firme abracei a maçaneta e entrei, sem fazer um barulho se quer, sem ser percebida. Ela estava deitada, dormindo na banheira.

Na penteadeira vi um broche com forma de adaga, achei que seria perfeito para perfurar o peito daquela vampira. Quando peguei o broche, sem querer esbarrei numa caixinha que caiu, ela percebeu minha presença e levantou da banheira, pude perceber como era belo seu corpo, seus seios firmes, grandes e provocantes, sua cintura fina e sua pele alva. Entendi o interesse louco de todos os homens. Ela era doce como uma fruta madura.

Uma diaba querendo me atacar, com os dois braços esticados na minha direção, ela pegou com força meu pescoço, eu estava perdendo a respiração, para me defender comecei uma sequência de golpes com a parte ponteaguda do broche, ela lutou, perdeu o equilíbrio e caiu no chão, eu cai junto, quando fui levantar ela me segurou tentando me golpear, mas já estava muita fraca, caiu sobre mim e com os olhos arregalados, e muito sangue por tudo, morreu!

Tive que esperar uns quinze minutos para sair. Atrás da porta eu ouvia o barulho de homens com mulheres, como porcos no chiqueiro. Percebi que era o momento de sair e dei de cara com o senhor no corredor, de cueca e meias. Ridículo!
E agora estamos aqui, Senhor Investigador!


Monólogo interno de uma personagem no dia de seu interrogatório, para um teste

Irmã Rosário de Jesus Crucificado

Milagre na Cela- Jorge de Andrade

nome de batismo- Lourdes Maria Monteiro Canudo
data de nascimento- 07/04/1940
idade na peça- 37 anos


Numa noite sombria de verão, com tempestade, relâmpagos e trovões Irmã Rosário sentiu as primeiras dores do parto. Em sua cela, de paredes de gesso, porta de grade de ferro vazado, sua cama, um criado mudo, castiçal e vela, copo e jarro de barro, uma cômoda com seu hábito, crucifixo na parede, e a Bíblia na altura da mão. Nesse quarto, Lourdes sentiu sua primeira contração e nesse quarto, com uma grave hemorragia, ouviu no fundo do seu pesadelo, o grito a plenos pulmões de seu filho, vivo e saudável!
Lourdes quase sem pulsação caiu em sono profundo, fraca, lutando pela vida, durante três dias, quando com um suspiro, abriu seus olhos e não viu seu filho.
A Madre estava sentada em sua cama e a olhava com olhar terno e maternal, mas ela só queria saber do seu filho e não conseguia entender o que a Madre estava falando, ela tentava entender, cordão umbilical, sufocado, azul, sangue, cordão umbilical, choro. Choro!
-Ele está vivo!! Mas a Madre esta falando alguma coisa que eu não consigo entender
-Meu filho, cadê o meu filho, eu escutei o seu choro, meu peito tem leite, me dê meu filho, eu escuto seu choro, traga ele para mim, não tenho forças de me levantar, traga ele para mim. E a Madre com um ohar doce pedia calma;
-Calma minha filha, isso vai passar, descansa.
Ela caiu em sono profundo e assim permaneceu por semanas, acordava e perguntava por seu filho, sem resposta caía em sono profundo. Aos poucos foi aceitando a morte do rebento, mas as noites escutava o choro e vozes dizendo que seu filho está salvo, vivendo no mundo lá de fora.



Essa é uma passagem totalmente fictícia, do passado obscuro/secreto e problemático, da personagem de Jorge de Andrade, trabalhei em 2008.